A armadilha de Iolanda

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Sala. Interior. Tarde.

Zé está na poltrona lendo o jornal. Lúcia está no sofá de bobeira.

 

- Ô Lúcia, você viu isso aqui que bizarro?

- O quê?

- O David Carradine.

- Quem?

- David Carradine.

- Quem é esse?

- O Bill, do Kill Bill.

- Que que tem?

- Como assim que que tem? Em que planeta você vive? Ele morreu, você não tá sabendo? Se enforcou tocando uma.

- Tocando o quê?

- Uma.

- Como assim?

- Ô Lúcia, presta atenção.

Zé faz movimentos com a mão que esclarecem o fato.

- SÉÉÉÉÉÉÉRIO???? E ele se enforcou ENQUANTO fazia isso?

- Se asfixiou.

- Mas por quê? Ele não tava curtindo?

- Pra sentir mais prazer.

- Meu Deus.

- Pois é.

- …

- Bizarro…

- Mas isso não aconteceu uns seis meses atrás?

- Cinco.

- Zé, você tá lendo jornal antigo de novo? De quando é esse jornal?

- Junho. Eu gosto de ler jornal velho.

- Ah, fala sério Zé.

- Tem notícias que não envelhecem, Lúcia. Simplesmente são sempre atuais.

- Você acha mesmo que a morte do seu samurai favorito é uma notícia que não fica velha?

- Lúcia, em primeiro lugar ele não era samurai.

- Sei.

- Ele era um mercenário que sabia algumas das técnicas de Pai-Mei.

- Zé?

- E além do mais

- Zé?

- Quê?

- Você ia deixar se eu te enforcasse de vez em quando?

- O QUÊ?

- Só um pouquinho.

- Pirou, Lúcia?

- É coisa pouca. Você não ia nem sentir.

- Claro que não! Tá louca? Olha só o que eu acabei de ler pra você! O sujeito morreu!

- Mas ele fez tudo sozinho. Eu vou tá lá com você. Qualquer coisa você bate com a mão três vezes que eu paro.

- E ainda vai ficar me zoando depois de arregão? De jeito nenhum.

- Se preferir então, eu não paro.

- Não.

- Não vai deixar mesmo?

- Não.

- Zé, eu não te digo não pra nada.

- Lúcia, quando que eu te pedi pra quase te matar?

- A questão não é essa. Pedido é pedido. Não importa qual é o pedido.

- Ah tá. Com essa sua lógica…

- Bem, já que você não vai me deixar te enforcar, vou colocar um DVD aqui pra assistir.

- O que você vai botar?

- Chiclete com Banana ao vivo no Carnatal 2007: a folia não pode parar.

- Eu mudei de ideia. Pode me enforcar.

- Cadê esse controle remoto…

- Lúcia, você realmente precisa me submeter a essa sessão de tortura?

- Você tá aqui porque quer.

- Eu tava aqui na sala antes lendo meu jornal.

- Um jornal de seis meses atrás?

- Não importa. Eu tava aqui lendo.

- Pode ler. Quem é que tá te impedindo?

- Quem te deu esse DVD?

- Ganhei da Iolanda no amigo oculto do escritório. Ela vai ao Carnatal há 19 anos. Não perde nenhum.

- Não é essa que não casou até hoje?

- Que que isso tem a ver?

- Em que data é o Carnatal?

- Tem em outubro, novembro e dezembro.

- E ela vai aos três?

- Quatro. Em outubro tem dois.

- E…

- Sim, ela vai em todos, por quê?

- E aposto que ela também vai naquele lugar super agradável que atende pelo nome de Salvador em fevereiro.

- Claro, ela é animadíssima, super alto astral. E antes ainda vai ao Pré-Caju.

- Perdoe a minha ignorância, mas o que seria o Pré-Caju?

- Quanta falta de cultura. É o Pré-Carnaval de Aracaju.

- Nossa, deve ser o máximo.

- Shhhhhh. Deixa eu ouvir a música.

- Lúcia, a letra desta música se consiste na infinita riqueza de vogais: aê, aê, aê, aê, ê, ê, ê, ê, oô, oô, oô, oô.

- Não enche, Zé. Vai ler teu jornal.

- Se eu conseguisse, eu juro que voltaria. Mas têm consoantes demais nesse jornal. Já não estão mais fazendo muito sentido.

- …

- Brincadeira. Tem umas músicas que são extremamente complexas sim. Não vou ser injusto. Por exemplo: Cara-caramba-cara-cara-ô. São quatro consoantes! É um avanço gigantesco.

- Zé, chega.

- Tá bem, vou te deixar em paz.

- Obrigada.

- …

- …

- …

- …

- Mas então, voltando à sua amiga oculta…

- Você realmente não vai me deixar ver o show?

- Lúcia, quantos neurônios seus precisam estar prestando atenção nesta tv para saber o que está se passando? Não é possível. Você vai se deixar levar pela armadilha da encalhada?

- QUEM?

- Iolanda, sua amiga encalhada.

- Que que você tá falando, Zé?

- Acompanha o raciocínio. Quantos anos têm Iolanda?

- 59.

- Ok. 59. E ela nunca se casou, correto?

- É, ela teve uns

- Casou?

- Não, não casou.

- Então dificilmente vai se casar daqui pra frente.

- Não posso concordar com você. O amor não tem idade, Zé. Pode acontecer a qualquer momento, a qualquer hora, onde se menos espera, você não viu As pontes de Madison?

- Não foi baseado em fatos reais. Só em ilusões, como essas suas agora, mas tudo bem. Se esta sua amiga potencialmente desencalhável esteve presente nas últimas 19 edições do Carnatal, então ela começou a freqüentar este ambiente agradável aos 40, certo?

- Certo.

- Uma idade em que a mulher já dificilmente terá filhos.

- Sim.

- E ela deu esse DVD só pra você?

- Nesse amigo oculto sim, mas nos aniversários, casamentos e coisas assim lá do escritório, ela sempre dá este ou outros CDs e DVDs.

- CARA-CARAMBA-CARA-CARA-Ô!

- O quê?

- Ela está disseminando a encalhadice dela, Lúcia! Você não vê?

- O quê??????

- Ela só começou a freqüentar esse evento desgraçado quando ela encalhou de vez.

- Eeeeeee????

- E ela está distribuindo isso pras amigas para levar a discórdia para dentro de casa. Separar os casais e levar as mulheres para seguir o pelô! Pra ir atrás do Araketu e largarem seus homens pra trás!

- Não Zé, não pode ser!

- Este DVD é um instrumento do DEMO, Maria Lúcia! Temos que nos livrar dele! Precisamos queimá-lo!

- Não toca no meu DVD!

- Tá vendo?! Você está sucumbindo à armadilha! Lute, Lúcia! Resista! Estas vogais não te pertencem! Venha para o mundo das consoantes! Tire esse ritmo desse corpo! Saia desse refrão!

- Eu não consigo, Zé! Elas são fortes demais!

- Só há uma saída: recite o abecedário pulando as vogais, Lúcia. Livre-se do mal!

- Você acha???

- É a única escapatória!

- Eu vou tentar!

- Você consegue!

- b,

- Isso, amor! Vai!

- c,

- Ótimo!

- d,

- Muito bem! Você consegue!

- ê

- Essa não.

- ê-ê-ê-ê, oô-oô-oô-oô! Quando você chegar,

Zé voa até o aparelho de DVD, arranca o disco de dentro dele, quebra em dois e joga pela janela, junto com a caixa.

- Ufa, essa foi por pouco.

- Meu herói! Zé, eu não sabia que você queria tanto salvar nossa relação. Estou tão emocionada.

- Calma que ainda não terminou. Você cedeu ao poder das vogais. Vamos ter que terminar o trabalho.

- Como assim? O que você tem nas mãos? É o que eu estou pensando?

- É.

- Não, Zé. Cauby Peixoto não. Eu já to boa. Sério. Nada mais de Axé. Pronto. Passou.

- E a Iolanda?

- Você nunca mais irá ouvir falar dela. Eu prometo.

- Ok. Mas vou deixar esse CD do Cauby caso você tenha alguma recaída.

5 thoughts on “A armadilha de Iolanda

  1. Beta on

    Genial! Era tudo que eu precisava pra curar meu humor.

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