Acordos

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Escada de serviço. Interior. Noite.

Zé está sentado na escada de serviço com uma lata de coca na mão. Severino, o zelador, está varrendo a escada quando o encontra.

 

- Seu Zé? O que o senhor tá fazendo aqui?

- O Senhor tá no céu, Severino. E a gente tá só no terceiro andar.

- Ô seu Zé, é só maneira de falar, seu Zé. Mas o que o senhor veio fazer aqui?

- Arrotar.

- Arrotar?

- É, Severa. Arrotar.

- Mas por que o senhor não faz isso em casa?

- Porque não dá, Severa. Não dá.

- Ô seu Zé, é melhor o senhor me explicar porque o senhor tá aqui porque o senhor sabe como é essa síndica, o senhor quer ver o diabo na Terra mas não quer ver a Dona Laura na tua frente e se ela souber que as pessoas tão vindo arrotar aqui na escada o senhor sabe pra quem vai sobrar não sabe? Pro Severino aqui.

- Ai Deus, eu me esqueci dessa outra louca. Ô Severino, quebra esse galho pra mim. Finge que não me viu aqui não.

- Eu até podia aliviar pro senhor, mas tem câmera pra tudo que é lado e o arroto do senhor vai ecoar pela escadaria toda.

- Putaquepariu. Nem isso eu consigo fazer em paz.

- Mas seu Zé, me explica por que o senhor tá querendo arrotar aqui?

- Por causa da Lúcia.

- Da Dona Lúcia? Vocês brigaram?

- Antes fosse. É muito pior do que isso.

- O que foi seu Zé, diga logo.

- A gente fez um acordo.

- Como assim? Que acordo?

- Severino, a minha vida com a Lúcia é muito boa, sabe? Eu não tenho do que reclamar. Ela me deixa ver meu jogo na tv, deixa eu sair com a galera pra beber, até me deixa dormir no sofá quando eu chego fedendo a cerveja.

- Sei.

- Me deixa ver na boa a coleção do Steven Seagal sempre que eu quero, sabe?

- Coisa boa.

- De madrugada, claro.

- Sim.

- Na sala, né.

- Sim sim.

- As bases de um relação saudável, entende?

- Sei sim senhor.

- Mas tem uma coisa que eu preciso fazer que a Lúcia não aceita de jeito nenhum.

- O que é, seu Zé? É trair é?

- Claro que não, Severino. Não é nada disso. É muito pior que trair.

- E o que é então, seu Zé?

- Severino, você tem vontade de trair a sua Maria todos os dias?

- Não, seu Zé. Todo dia não.

- Severino, você é feliz e não sabe.

- Sou?

- Você tem vontade de arrotar todo dia não tem?

- Ué, claro, todo mundo tem.

- …pois é. Entendeu agora?

- Seu Zé Carlos, o senhor tá aqui porque a Dona Lúcia não deixa o senhor arrotar em casa?

- Foi o acordo que a gente fez pra morar junto.

- MEU DEUS, SEU ZÉ. O QUE FOI QUE O SENHOR FEZ?

- Eu vendi a minha alma, Severa.

- Eu não acredito, seu Zé.

- Eu perdi o direito àquilo que nos une aos nossos mais antigos antepassados, Severino. Aquilo que define o Homem como o ser provedor da casa e defensor do seu lar.

- Ô seu Zé, não fica assim.

- Eu to me tornando um ogro domesticado.

- Não diga isso, seu Zé. Não se entregue dessa maneira.

- Sabe aquele arroto que vem lá do fundo da alma, Severino? Aquele que vem das profundezas do inferno, capaz de evocar os antigos espíritos do mal e transformar esta forma decadente em Mum-Rá?

- O de vida eterna?

- O próprio.

- Sei sim, seu Zé.

- Pois é. Lá em casa não pode mais.

Severino larga a vassoura e se senta ao lado de Zé Carlos no degrau sujo da escada. Os dois ficam com o olhar fixo em um ponto perdido.

Nada mais é dito.

 

4 thoughts on “Acordos

  1. Anna on

    Num vai ter mais????? Saudade da Lúcia e do Zé!!!!!

  2. Mas arrotar assim na frente da mulher acaba com o glamour.
    Aquele gatinho q dá mole prá ela no trabalho não arrota assim, não na frente dela. E se o Zé faz isso, + Nº 2 de porta aberta, eu não ia mais sentir tesão por ele é mais nunca!

  3. Arroto tem vida própria? hauhauhaa

    Mesmo concordando com tudo o que minha amiga Engraçadinha disse, tenho que dizer: Mulher arrota também. Mas mulher sabe arrotar! ahha

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