Crônica de um término anunciado

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Corredor/porta do banheiro. Interior. Noite.

 

- Ô Lúcia, que que você tá trancada aí no banheiro há tanto
tempo? A novela vai começar. Você não vem não?

- Isso aqui tá muito melhor.

- Isso o quê?

- Zé, você nunca me falou que tinha um diário!

- MARIA LÚCIA, O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ DENTRO?

- “Foi num domingo que aquela vagabunda me deixou.”

Zé começa a esmurrar a porta.

- LÚCIA, ABRE ESSA PORTA AGORA.

- “Tínhamos passado um fim de semana de merda, mas não
imaginava que terminaria dessa maneira.”

- ABRE ESSA PORTA AGORA.

- “Tinha a capacidade de dizer de mim tudo que eu queria dizer dela, mas com uma articulação muito melhor.”

- LÚCIA, EU NÃO TO BRINCANDO. ABRE ESSA PORTA.

- Shhhh. Os vizinhos vão reclamar e eu vou ser obrigada a
ler pra eles.

- Você não vale nada. Abre essa porta agora.

- “E era mais esperta que eu, sabia disso e pior, sabia
como isso me deixava puto.”

- Para, Lúcia. Para agora. Eu to pedindo.

- “Dois meses atrás mandei um bilhete mandando ela a merda.
Me respondeu dizendo que faltava a crase.”

- Você ainda pode se redimir. Pare.

- “As coisas já não tavam nada boas entre nós, mas foi
quando ela entrou naquele mestrado que realmente foi tudo pro espaço.”

- Eu to avisando.

- “Foi ali que surgiu o desgraçado do Jorge, o orientador.
A partir dali minha vida virou um inferno.”

- Eu avisei. Sabe aquele teu CD da Whitney Houston? Acabou
de ganhar mais um buraco.

- Eu copiei pro computador lá do trabalho. “Era Jorge disse
isso, Jorge comentou aquilo, Jorge citou esse livro…”. Humm. To achando que
rolou um chifre aqui, hein.

- Atenha-se ao texto, Lúcia. Poupe-me de seus comentários.

- Rolou com certeza. Onde eu tava? Ah sim. “Jorge citou esse livro, esse filme, esse vernissage, como assim, vernissage? Homem não vai a um vernissage, porra. Que isso? Vai no máximo a uma inauguração Se rolar um vinho de graça, mas em vernissage homem que é homem não vai nem amarrado.” Você sempre foi insensível mesmo. Tomara que essa garota tenha te chifrado mesmo.

- Você tá sentada na privada lendo isso? Vai te dar hemorróida, sabia?

- Shhhhhhh. “Foi aí que eu vi que a coisa tava feia. Ela ficou puta, disse que o Jorge era um homem sensível, delicado, que sabia
apreciar as nuances da vida. Eu disse que lá na minha rua o pessoal chamava isso de outra coisa.” Eu não acredito que você falou isso pra garota, Zé Carlos.

- Eu não to mais falando com você.

- “Bateu a porta e foi pra vernissage. Com o Jorge. Chegou bêbada e ainda me botou pra dormir no sofá.”

Flashback. Zé está acordando no sofá e vê sua futura ex sentada tomando café.

- Você acha bonito o que você fez? – O que foi que eu fiz?

- Saiu com outro homem num sábado à noite, chegou bêbada e me expulsou da cama.

- Se eu tivesse saído com outro homem em qualquer outra noite não teria problema então?

- Hahaha. Olha como eu to rindo.

- Não era uma piada.

- Como foi o vernissage?

- Foi o máximo.

- Só isso?

- Quer saber mesmo?

- Quero.

- Foi uma experiência única. O artista tinha uma abordagem totalmente iconoclasta na sua visão crítica da sociedade de consumo e usou seus próprios símbolos para usurpá-la do seu sentido enquanto organização fluida e fútil.

- Nossa. Realmente é interessantíssimo. Só me diz uma coisa, essa opinião é sua ou do Jorge?

- O vernissage era do Jorge.

(Lúcia: Iiiiiiiihhhhh. Perdeu, hein mané.)

- Ô LÚCIA, QUER SAIR DO MEU FLASHBACK FAZENDO O FAVOR?

(Lúcia: Tá bom, tá bom. Mas você dançou bonito aí.)

- TCHAU.

- Quem é Lúcia? Com quem você tava falan

- Esquece, você jamais iria entender. Não muda de assunto. Você não tinha dito que a exposição era dele. Nem sabia que ele pintava.

- Eu poderia escrever um livro em 5 volumes sobre o que você não sabe sobre o Jorge. Mas a exposição não era de pintura. Era uma
performance dele. Quer saber como era?

- Sinceramente não. Dispenso.

- Foi magnífica. Ele se envolveu em uma capa com centenas de logomarcas e correu pela sala enquanto fazia a dança do acasalamento do tamanduá africano, até jogar a capa fora e atear fogo ficando totalmente nu.

- Qual foi a parte do “Sinceramente não. Dispenso.” que você não entendeu?

- Depois ele dispensou os jornalistas e me deu atenção a noite toda.

- Pelado?

- Nem vou me dar ao trabalho de responder. Ficamos bebendo vinho e falando de Foucault, Heidegger, Deleuze. Quando vimos, estávamos apenas nós dois lá.

- Sei. Só vocês dois.

- Zé, a gente precisa conversar.

- Sobre Foucault?

- HAHAHAHAHAHAHA. E desde quando você sabe alguma coisa de filosofia? Você só sabe a escalação do Flamengo de 81 e olhe lá.

- Claro. E o que mais um homem precisa saber?

- Não começa.

- Sério Sônia, olha só. Heidegger não conseguiu resolver todas as suas questões fenomenológicas e hermenêuticas apenas porque não viveu para ver o gol do Nunes em cima do Atlético Mineiro em 1980.

- É mesmo?

- Claro, aquilo foi um divisor de águas na história da humanidade.

- Sei.

- Foucault viu, mas como morreu em 84 não teve o distanciamento temporal necessário para perceber que aquele era o melhor time
desde o Santos de Pelé.

- E Deleuze?

- Deleuze tinha tudo pra estourar. Presenciou cinco dos seis títulos brasileiros,

- Quatro.

- Cinco.

- Quatro.

- Não vou discutir isso de novo com você. Deleuze jamais discutiria isso. Ele viu o título de Tóquio. A supremacia em todo território
nacional, sul americano e mundial.

- O que houve então?

- Viveu demais. Morreu em 95.

- E?

- Presenciou o gol de barriga. Comprometeu o trabalho de  uma vida inteira.

- Zé, ontem depois da vernissage eu fui ao apartamento do Jorge. Ele me chamou para ver a tese dele.

- O quê? Você caiu no conto do vamos lá em casa para eu te mostrar minha tese?

- Eu vim buscar as minhas coisas. To indo morar com ele.

- Como é?

- Eu to indo.

- Sônia… como assim?

- Deu, Zé. Acabou.

- Você só tem tesão intelectual por ele, Sônia. Vai acabar.

- Não vai não.

- Vai sim. E aí você vai ver que ele é um chato insuportável que começa as frases falando veja bem e usa as mãos para fazer
aspas quando está falando.

- Tchau Zé. Se cuida.

Ela abre a porta levando sua mala.

- Sônia.

Ela se vira para ele com um olhar de não aguento mais, me deixa ir embora logo.

- Só me diz uma coisa. Sobre o que era tese?

- 1987: O ano que não terminou. O impacto do título do Sport sobre as comunidades ribeirinhas do Recife: reflexos e resgates.

Volta para Lúcia lendo no banheiro.

- “Desmaiei. Quando acordei, ela havia ido. O babaca ainda torcia pro Sport. Não podia ser pior.”

Lúcia abre a porta. Encontra Zé deitado no chão.

- Desmaiou, é?

- Sabe, você não tinha o direito de mexer nas minhas coisas.

- Ah, nem vem. Vai ficar aí estatelado?

- Vou.

- Ainda gosta dela, é?

- Há. Não me faça rir. Nem me lembrava dessa história.

- Claro, claro. Nem deve lembrar também tem um adesivo dos Ursinhos Carinhosos em cima do nome dela escrito Love You Forever and Ever.

- Não tenho idéia do que você tá falando.

- Então levanta daí. Eu vou lá ver o fim da novela. Você vem?

3 thoughts on “Crônica de um término anunciado

  1. AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
    Demorou mas voltou em grande estilo
    Uma das melhores pra mim!!! arrasou Gui!
    bjs

  2. heloisa on

    Gui, muito boa!!
    Adorei especialmente o efeito do flashback interrompido pela Lucia….
    Ja te falei pra enviar isto pra algum diretor da Globo!
    Beijos ,

  3. Ana Helena Coutinho on

    Gui, li todas numa sentada! ARRASOU! Me avisa dos próximos, pelo AMOR! bjs

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