Dormindo com o inimigo – Conclusão

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Apartamento de Zé e Tamara. Sala. Noite.

Zé está com o vaso no colo.

 

- Zé? Zé? Fala comigo, Zé.

- …

- Zé, por favor. Fala comigo. Tem uma semana que você tá nesse estado catatônico agarrado com esse vaso. Por favor, fala comigo.

- …

- Zé, por favor, não é possível. O que foi que eu fiz?

- O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ?

- O que foi que eu fiz?

- Você ainda pergunta o que foi que você fez?

- Como eu ia saber que os restos da sua avó tavam enterrados nesse vaso? Como?

- Do mesmo modo que eu ia saber que você costuma ficar mijando pelos cantos da casa.

- Zé, não é nada disso.

- Ah, não é?

- Não!

- Então o que é?

- …

- Não vai falar nada? NADA?

- Zé, não é nada disso que você tá pensando.

- Se coloca no meu lugar. Não. Pior. Se coloca no lugar da minha avó.

Zé começa a acariciar a planta.

- Tamara, imagine que você tenha morrido. E que, contrariando todas as expectativas, lógicas e religiões, você vá para o céu. Tente imaginar a paz ao seu redor. Os pássaros cantando. O descanso e a recompensa eterna. Agora se imagine deitada em uma espriguiçadeira celestial e no meio de todo esse paraíso cai do nada uma cachoeira de xixi bem em cima da sua cabeça.

- Zé…eu não

- Da paz sem fim para a humilhação eterna, em apenas um jato.

- Não é bem assim…

- E agora ela tá mijada pra sempre. Foi isso que você proporcionou para a minha avó, Tamara.

- Mas Zé…

- E tem mais! Não parou por aí! Imagine agora que você encontrasse a origem dessa cachoeira e tivesse a oportunidade de perguntar para ela o porque dela ter feito isso.

- Zé, para…

- E ela se cala. Nenhuma palavra sobre o assunto. Uma semana se passa e ela não tem uma palavra sequer de explicação para dar quando nós temos DOIS BANHEIROS EM PLENO FUNCIONAMENTO NORMAL NA CASA.

- Zé querido, eu posso explicar.

- AH, AGORA TEM UMA EXPLICAÇÃO! Uma semana depois! Que que há, Tamara? Você tá achando que eu sou o quê? Você levou esse tempo todo para achar uma desculpa plausível? Faça-me o favor.

- É que aquela planta me excita.

- Oi?

- Me deixa louca. Eu não posso passar por essa área de serviço que me dá uma coisa aqui, sabe, bota a mão no meu peito, tá vendo, essa planta fica me fitando e eu fico a

- MIJAR NA MINHA AVÓ TE EXCITA?

- Eu não sabia que a tua avó tinha ressucitado naquela planta.

- NÃO DEBOCHA DA MINHA AVÓ, TAMARA CRISTINA.

- Zé, faz muito tempo que você me evita. Você nem olha mais pra mim. O que tá havendo? Eu já to subindo pelas paredes.

- Pior, você tá rolando ladeira abaixo. Que fetiche é esse?

- Zé, me desculpa. Mas eu sinto sua falta, Zé. De verdade. Mas você sempre chega tarde, tá cansado, ou tá com a cabeça no trabalho, ou é o Flamengo que tá na zona de rebaixamento, sempre tem alguma coisa.

- Agora a culpa é do Flamengo?

- Ele vai se recuperar, Zé. Isso é só uma fase. Que nem a gente.

- …

- Eu faço qualquer coisa para você me perdoar. Me dá uma chance.

- Vó, você acha que ela merece?

- Eu preparei uma surpresa pra você.

- Que surpresa?

- Se eu falar, não vai ser mais surpresa.

O interfone toca. Tamara vai atender.

- Hummm. Acho que eu já sei quem é. Só um instante.

- Como assim? De quem você tá falando?

- Oi Valdir. Sim, sim. É pra cá mesmo. Pode subir. Obrigada.

- Quem tá subindo?

- É a surpresa! Ela chegou!

- Ta…Ta…Ta… o que é?

- Surpresa!

- É o que eu estou pensando?

- Acho que sim!

- Para fazermos… nós três?

- Não vai ser o máximo?!

- Tá! Eu não to acreditando! Mas você nunca topou!

- É só para mostrar até onde eu to disposta a ir por você.

A campainha toca.

Tamara abre a porta.

Entra um anão vestido com o uniforme da Seleção Brasileira de 1986.

Zé se levanta.

- Tamara, o que é isso?

- Esse é o Paulinho. Mas como essa noite ele é nosso, pode chamar de Toninho.

- Opa.

- Eu…eu…eu…

- Eu sei que você tá emocionado. Não pense que foi fácil achar um anão sósia do Toninho Cerezo. Mas quando eu encontrei aquela figurinha dele no meio das suas cuecas, eu entendi tudo. É meio esquisito mas eu respeito, Zé. Cada um é do seu jeito.

- Ta…Ta…Ta…

- Se é isso que te dá tesão, eu to dentro Zé.

Zé arremessa o vaso na cabeça do anão, que desmaia.

- Zé!

- Vó!

5 horas depois. Tamara e um policial estão na porta. Ele, de saída.

- O anão vai comigo. Eu vou aliviar pro lado da senhora dessa vez. Mas procura esse psiquiatra aqui. A senhora precisa muito. Toma aqui o cartão dele.

Seis anos depois. Consultório do Dr. Jacques. Zé no divã.

- Satisfeito, Doutor? Precisava mesmo te contar essa história? Acrescentou alguma coisa ao seu diagnóstico?

- E a sua avó? Como ela ficou depois disso tudo?

- A minha avó?

Lúcia invade a sala.

Lúcia: Então essa era a história do famoso anão que você nunca me contou, José Carlos?

Dr. Jacques: Maria Lúcia, por favor se retire você não pode entrar assim durante uma consulta.

Lúcia: Calaboca que o teu tá guardado.

Zé se levanta: Lúcia, meu amor, que saudade, você cortou o cabelo?

Lúcia: Não me vem com esse papo de saudade não, cachorro.

Zé: Mas não aconteceu nada, Lúcia! Você não ouviu?

Lúcia: Ah, mas ficou todo animadinho quando achou que ela tinha chamado uma piranha pra vocês brincarem, seu desgraçado.

Zé: Não, Lúcia, eu não sabia o que era. Eu achei que a gente ia jogar Imagem & Ação.

Dr. Jacques (ao telefone): Por favor, chamem a segurança, rápido.

Lúcia: Agora eu entendi essa sua devoção por aquela planta. Custava ter me contado? Eu passo horas conversando com aquela planta e eu nem sabia que ela era da família. Cada coisa que eu já contei pra ela…

Dr. Jacques: Ah, então a avó sobreviveu?

Zé e Lúcia olham para o Dr. Jacques e, com ar de desprezo, viram-se e se vão.

Noite. Apartamento de Zé e Lúcia. Os dois na cama.

Ele vendo tv. Ela comendo brigadeiro direto da panela.

- Sabe Zé. Esse lance da gente tentar descobrir se é louco ou não é a maior bobeira.

- Eu não sei daonde você tirou essa ideia.

- Pois é.

- Pra começar você podia ter me falado antes de ir nesse psiquiatra. Ia ter evitado isso tudo.

- Agora já passou, Zé. O importante é que a gente tá junto.

- É. Bem, Lu. Eu vou dormir que eu to esgotado. Beijo.

- Boa noite. Ah, e só pra te falar. Coloquei no Facebook que o Mathias, teu amigo, é broxa. Agora todas as mulheres vão querer dar pra ele pra se vangloriarem depois de terem feito ele funcionar. Diz aí. Sou ou não sou genial?

- VOCÊ FEZ O QUÊ?

- Vai ter fila na porta dele. Vai por mim.

 

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