Dormindo com o inimigo – Parte 1

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Sala. Interior. Dia.

Zé está no sofá lendo o caderno de esportes quando Lúcia entra em casa.

 

- Oi, mor.

- Oi Lú. Tá melhor da gripe?

- Atchim.

- Saúde.

- Então.

- Ainda não, né?

- Ainda não.

- Onde você tava?

- Resolvi te ouvir, sabe.

- Hã?

- Fiquei pensando numas coisas. Ainda mais depois disso tudo que aconteceu com a Tamara e o Mathias. Atchim.

- Saúde. Tá ligada que ele ficou com seqüelas, né?

- Não me deixa mais culpada, Zé. Por favor.

- Ele não consegue nem mais se lembrar da escalação do Corinthians de 1954.

- Zé Carlos, por favor. To achando que você tá falando sério.

- Pra ele isso é mais do que sério. Foi um empate histórico com o Palmeiras.

- Sério é não se lembrar do aniversário de namoro. Isso que é sério.

- Lúcia, isso não ficou para trás? Perdoar e esquecer, lembra?

- A parte do esquecer você sabe muito bem. Atchim.

- Saúde. Mas onde você tava mesmo? Você ainda não me disse.

- No psiquiatra.

- O QUÊ?

- No psiquiatra.

- Como assim?

- Não é você que vive dizendo que eu sou maluca? Que eu não penso antes de fazer as coisas? Então.

- Não acredito.

- Sério. Quer ver o recibo?

- Não, não, não. Essas questões pesadas podem ficar pra depois. Quem te indicou esse médico?

- A Tamara.

- A TAMARA?

- Ué. Que que tem?

- COMO ASSIM, QUE QUE TEM?

- Zé, tirando você, todas as pessoas que eu conheço são normais. A única louca que eu conheço é a maluca da sua ex-namorada.

- E VOCÊ AINDA FALA COM ELA?

- Claro que não. Você acha que eu sou maluca?

- …

- ACHA?

- Eu não sabia que ela ia num psiquiatra.

- Pois é. Vai.

- E como você sabe?

- Por que ela me contou aqui em casa.

Flashback.

Sala. Interior. Noite.

- O Zé acha que apertar cravos é coisa de maluca.

- Imagina. Meu psiquiatra disse que isso é super normal.

- Sério? Me dá o telefone dele?

- Ó o cartão dele aqui. Pode ficar. Ele é ótimo.

Zé e Mathias entram na sala.

- Oi, Lúcia. Tudo bom?

- Zé, vem cá, senta aqui.Vamos mostrar pra Tá como você adora que eu aperte seus cravos.

- Que isso, Lúcia? Bebeu?

Fim do flashback.

- Ela não é uma boa referência?

- Claro que não.

- Quem vai ao psiquiatra não é maluco? Você queria o quê? Que eu pegasse indicação com quem é são? Zé, sinceramente, às vezes eu acho que é você que quer me enlouquecer.

- Eu não falei nada, Lu. Ô amor, vem cá. To tão feliz que você resolveu se cuidar. Me dá um abraço.

- Melhor não. Vamos ficar assim que nessa distância tá seguro.

- Quê?

- Se bem que não é bom contrariar, né?

Lúcia dá um abraço relâmpago em Zé e se afasta.

- Lúcia, tá tudo bem com você?

- Sim, sim, querido. Tudo que você disser.

- O que está acontecendo?

- Onde? Agora?

- Que papo de maluco, Lúcia.

- Sabe qual é a maior loucura de ir ao psiquiatra?

- Qual?

- É a sala de espera.

- Por quê?

- Você chega lá e se senta, como uma pessoa normal. Pega uma revista para folhear, como uma pessoa normal. Uma Veja de 1985 com o Tancredo na capa, por exemplo. Supernormal. Até que sai da sala do médico e o paciente anterior. Vocês se olham e pronto.

- Pronto o quê?

- Agora um sabe o maior segredo do outro sem ninguém ter dito nada.

- Que segredo, Lúcia?

- Que os dois são loucos!

- Ah, Lúcia, por favor.

- O segredo que você tanto se esforçou para esconder, agora nas mãos de um estranho.

- Para, Lú.

- Eu acho que as pessoas deviam ficar com um capuz na sala de espera. Para evitar esse tipo de situação.

- Um capuz?

- Ou uma máscara.

- Não brinca, Lú.

- No fim da sessão você fala, obrigado doutor, até semana que vem, só um instantinho para eu colocar meu capuz, ok? Aí você tira no corredor lá fora.

- …

- Porque sem isso, eu corro o risco de esbarrar na rua com essa pessoa, ela olhar pra mim e pensar: olha aí a louca do Tancredo.

- …

- E se estiver junto com alguém, vai dizer, essa daí só paga com cruzado.

- Quem lançou o cruzado foi o Sarney. Não o Tancredo.

- O sujeito é louco, Zé! Ele também tava no psiquiatra. Vai querer discutir sobre quem lançou moeda com o louco?

- Mas como era esse sujeito?

- Que sujeito?

- O louco.

- Ah, não. Não havia ninguém lá não.

- E o paciente anterior que saiu da sala do médico?

- Não, não. Era tudo uma hipótese.

- …

- Que foi?

- Eu não sei se eu fico feliz porque você foi se tratar ou preocupado com as coisas que você fala depois de ter ido lá.

- Você tem que trabalhar com hipóteses, Zé. Tudo pode acontecer.

- E a revista? Era real ou também era hipotética?

- Não, não. A revista era real.

- E era de antes ou depois da morte do Tancredo?

- Qual a diferença?

- Simples. Se ele guardou uma revista de antes da morte, ele é de esquerda. Se a revista é de depois da morte, ele é de direita.

- E?

- E isso influencia diretamente na linha do tratamento.

- Não me lembro de quando era a revista.

- Humm. Em cima do muro então …

- Nós conversamos bastante sobre isso.

- Sobre política?

- Não, sobre essa sua mania de categorizar tudo. É meio coisa de psicopata, sabia?

- Vocês ficaram conversando sobre mim?

- Claro, ele queria saber de tudo sobre a minha vida.

- Então naturalmente vocês conversaram sobre quando você achou que a gente não ia dar certo porque nossos nomes não começavam com a mesma letra.

- Nem lembrei disso.

- E sobre quando você quis terminar comigo porque achava que eu ia te passar gripe suína porque eu não lavava a mão antes e depois de tirar meleca?

- Também foi um assunto que não surgiu.

- Mas quando você enrolou uma toalha na cabeça e quis apresentar uma amiga de peito peludo pro meu amigo você falou, certo?

- Ela não tem peito peludo.

- Falou ou não falou?

- Zé, eu não fui lá pra falar sobre assuntos pequenos não.

- E de quando você tomou veneno de rato para emagrecer? Falou?

- Falei.

- Sério? Falou mesmo?

- Falei.

- E o que ele disse?

- Ele perguntou como eu me sentia a respeito.

- E o que você disse?

- Que eu me sentia gorda.

- Gorda?

- Uma baleia. Uma orca. Uma jamanta. Uma godzila.

- Lúcia, pelo amor de Deus. Não era disso que ele tava falando.

- Ah, então agora você sabe tudo, senhor psicanalista?

- Peraí. Ele é psiquiatra ou psicanalista?

- E tem diferença?

- Meu Deus. Ela nem sabe em que médico que foi.

- NÃO FALA COMIGO NA TERCEIRA PESSOA COMO SE EU NÃO ESTIVESSE AQUI, ENTENDEU?

- Lúcia, ele te receitou algum remédio?

- Receitou.

- JURA? O QUÊ? UM ANSIOLÍTICO? UM ANTI-PSICÓTICO?

- Uma vitamina C.

- O quê?

- Pra essa gripe.

- …

- Tá foda essa gripe.

- …

- Que foi?

- …to perdido mesmo.

- Mas fique sabendo que ele ficou bem intrigado com uma história de um certo anão.

- Você tá brincando.

- Eu? Não sou eu que tem o hábito de brincar com essas coisas.

- Por que você não coloca logo na internet essa maldita história? Faz logo um blog!

- Mas isso não foi o pior.

- Ah! Tem mais!

- O que deixou ele realmente assustado foi sobre você colocar a comida no prato em ordem alfabética.

- …

- Não vai dizer nada?

- Você… contou isso… pra ele?

- Arroz, Batata, Cenoura, Espinafre,

- Pare.

- Você precisa cuidar disso, amor.

- E sobre você querer apresentar uma ex-namorada minha para um amigo meu, mudar de ideia no meio do caminho e terminar com ele no hospital? Isso é normal?

- AQUELA VACA COMEÇOU A DAR EM CIMA DE VOCÊ NA MINHA FRENTE.

- E QUAL É O PROBLEMA DE COLOCAR A COMIDA NO PRATO EM ORDEM ALFABÉTICA? CHURCHILL FAZIA ISSO. OLHA O QUE ELE FEZ PELA INGLATERRA!

- E OLHA COMO ELE MORREU OBESO!

- Eu desisto.

- Zé, eu só quero o seu bem.

- Então, baseado nas suas loucuras, a conclusão é que o louco sou eu?

Interfone toca.

Lúcia atende.

- Ok, Valdir. Pode subir. Obrigada.

- Quem é Lúcia?

- Eles chegaram.

Continua.

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