Dormindo com o inimigo – Parte 2

Sala de espera. Interior. Dia.

Lúcia está sentada folheando uma Veja de 1985.

 

- Gente, olha como o Tancredo era fofo!

A porta abre.

- Maria Lúcia?

- Eu.

- Vamos entrar?

Ela se levanta e entra na sala.

- Onde eu sento?

- Onde se sentir mais à vontade.

- Pode ser no divã?

- Pode.

- Posso deitar?

- Claro.

- De bruços?

- Como?

- De bruços. Eu só deito de bruços.

- Não vai ficar um pouco desconfortável?

- É o que Freud diz?

- Freud? Não, ele nunca disse nada a respeito.

- Tem certeza?

- Sim, creio que sim. Ele nunca levantou essa questão.

- Em 120 anos de toda a história da Psicanálise nenhum paciente nunca deitou de bruços no divã?

- Não que tenha sido catalogado.

- Você acha arriscado?

- Pode não lhe fazer bem.

- Para o meu ego?

- Não. Para a sua coluna.

- Hum… acho que vou ficar sentada então.

- Como quiser.

Os dois se sentam, um de frente para o outro.

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- E então?

- Você não acha que o Tancredo era um fofo?

- Como?

- Mega fofo. Desses que dá vontade de apertar a bochecha e acordar cedo pra ir junto na padaria e passar na banca pra comprar jornal.

- Hum.

- Eu não tinha essa recordação dele, sabe?

- Hum.

- Acho também que o Sarney ocupou todas as minhas lembranças dessa época da minha infância. Por isso não lembro tão bem do Tan.

- Tan?

- Credo.

- Sim, sim, claro. Mas, me diga. O que mais vem à sua mente sobre a sua infância?

- Já começou?

- O quê?

- A sessão?

- Não é para isso que estamos aqui?

- Estamos?

- O que você acha?

- Então, análise é isso?

- Isso o quê?

- Nenhuma resposta? Apenas perguntas?

- Não são as perguntas que nos fazem pensar?

- Pensar?

- Refletir, talvez?

- Desde quando você está me analisando?

- Isso é importante?

- Não deveria ser?

- O que você acha?

- Eu?

- Tem mais alguém aqui?

- Que horas são?

- Vai a algum lugar?

- Não vamos todos?

- Vamos?

- Que dia é hoje?

- 15?

- E o segundo turno? Dá Dilma ou Serra?

- O que você sente a respeito?

- Sinto?

- O que seus sentimentos lhe dizem?

- Será que vai chover?

- Como?

- Água. Caindo do céu. O fenômeno meteorológico da precipitação de gotas d’água no estado líquido sobre a superfície da Terra, entende?

- Poderia desenvolver?

- Nem todas as chuvas atingem o solo, algumas evaporam-se num fenômeno que recebe o nome de virga e acontece principalmente em períodos de ar seco, mas isso não vem ao caso. O que acontece é que estou gripada e esqueci o guarda-chuva. Você tem um para emprestar?

- Chovia muito na sua infância?

- Lá vem você de novo com esse papo de infância. Acha que vou perder seu guarda-chuva? Não se preocupe. Depois que o Papa decretou o fim do limbo, os guarda-chuvas perdidos não têm mais para onde ir. Uma hora eles acabam voltando. Que nem as tampas das canetas Bic. Seus pacientes esquecem muito seus guarda-chuvas aqui?

- Maria Lúcia, quando você sai na chuva você prefere correr ou caminhar?

- Isso quer dizer que não vai me emprestar o guarda-chuva, né?

- Há quanto tempo você está nessa chuva?

- Para o seu governo, a chuva tem papel importante no ciclo hidrológico. Ela é medida com um pluviômetro: a boca de um funil coleta as gotas e as acumula em um reservatório. Um observador, com uma pipeta com escala graduada, mede o volume de água. Sacou?

- E quem é você nisso tudo, Maria Lúcia? O observador ou o funil?

- Oi?

- Talvez a pipeta?

- Tá me estranhando, Doutor?

- Interessante que tenha perguntado sobre a estranheza disso tudo, não acha?

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- Você sabia que as gotas de chuva não seguem a mesma formação que as gotas de água que caem de uma bica ou de uma torneira?

- E quem você vê no controle dessa torneira?

- Não sei. Quem sabe?

- Maria Lúcia, do que estamos falando aqui?

- Você não sabe?

- Sinceramente, não.

- A-HÁ!

- O que foi?

- Ganhei!

- Ganhou o quê?

- Você parou de responder com perguntas antes do que eu!

- Maria Lúcia, isso não é um jogo.

- Não?

- Não.

- Tem certeza?

- Tenho.

- Não quer uma revanche?

- Eu não estava jogando.

- Eu te dou umas perguntas de vantagem.

- Maria Lúcia, isso é só o início da nossa conversa. Eu ainda não posso lhe dar nenhuma resposta porque não lhe conheço. Nem sei porque você está aqui. Como posso responder alguma coisa?

- Tá querendo me pegar, né?

- MARIA LÚCIA, PARE!

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- Me desculpe. Não devia ter gritado. Vamos começar de novo?

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- Vamos?

- Ok.

- Ótimo. Fique à vontade então. Comece por onde quiser.

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- Doutor, por favor. Me diga. Eu sou maluca?

Continua

 

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