Dormindo com o inimigo – Parte 3

Consultório. Interior. Dia.

 

- Doutor, por favor. Me diga. Eu sou maluca?

O médico tira os óculos, esfrega os olhos, coça a testa e, olhando para baixo, pergunta:

- De onde você tirou essa ideia?

- Não fui eu. Foi o Zé.

- E quem é o Zé?

- Meu namorado. Companheiro. Homem. Não sei como dizer isso direito, essa indefinição de relacionamento acaba comigo sabe, você mora com a pessoa, mas não é casada, tem a vida de casada, mas não tem aliança, você pede uma definição, ele diz que esse lance de rotular as coisas não tem nada a ver, que o que importa é o sentimento, os momentos que a gente vive, coisa e tal, aí você cai nessa ilusão de que ele é um namorido, o que é excelente para quem quer viver em cima do muro, mas para mim não, muito obrigada, e como não existe namorida, aliás ainda bem, porque eu jamais iria compactuar com essa palhaçada então eu viro o quê? Mulher. É só ter que me apresentar pra alguém que ele fala, opa, tudo bom, essa aqui é minha mulher, como se ter ido morar com ele tivesse me transformado em mulher, e não o fato deu ter menstruado, me formado e ter sobrevivido às promoções no sábado de manhã no início do mês na Shoestock de Moema. Nossa, que sensação de dejá vu.

- Hum.

- Hum?

-Hum.

- Como assim, “hum”?

- Como assim, “como assim, “hum””?

- Doutor, o senhor vai me desculpar, mas depois deu dizer 182 palavras em 4.3 segundos tudo que você tem a me dizer é “hum”?

- Arrã.

- Então, se você vai ficar gemendo ao invés de conversar comigo, isso aqui não vai dar certo.

- Continue, por favor. Por que o Zé acha que você é maluca?

- Bem, já faz um certo tempo que ele diz isso.

- Sim.

- Como quando eu tomei um remédio sem prescrição para emagrecer, sabe?

- Tipo veneno de rato?

- Você conhece?

- Não me é estranho.

- O Zé disse que eu era louca de tomar aquilo, que eu podia morrer, que eu não sabia o que tava fazendo, enfim, umas bobeiras assim.

- Devo dizer que ele tinha uma certa razão. As conseqüências poderiam ter sido graves.

- VAI FICAR DO LADO DELE LOGO DE CARA? CORPORATIVISTA SEM VERGONHA. Vocês homens são todos iguais. Sabia que eu devia ter ido na taróloga que a minha prima falou.

- Não se trata de estar do lado de ninguém, Maria Lúcia. E não creio que suas questões seriam resolvidas em um jogo de cartas.

- Ela também faz mapa astral, búzios e analisa vidas passadas em um pacote só. Um deles ia acertar.

- Maria Lúcia? Vamos voltar para a sessão?

- Devia ter pego o Spiritual Combo.

- Como você se sentia neste episódio do remédio para emagrecer?

- GORDA, doutor. GORDA. Como você acha que uma mulher se sente? Uma Shamu prenha descontrolada. Uma vaca obesa manca tentando espantar moscas em lugares que o rabo não alcança.  Uma bola gigante colorida que se ganha no parque de diversão quando você acerta a argola e que sempre explode no dia seguinte.

- Hum. O que mais?

- Ainda não entendeu? Será que a taróloga ainda tem hora hoje?

- Eu quero dizer, teve mais alguma coisa que levou o Zé…, é Zé o nome dele?

- José Carlos. Mas pode chamar de Zé. Não tem problema.

- Teve mais alguma coisa que levou o José Carlos a questionar sua sanidade?

- Bem, teve a vez que eu quis dar um tempo com ele porque ele não lavava a mão nem antes nem depois de tirar meleca.

- Apenas por isso?

- Claro que não. Você acha o quê? Que eu sou maluca?

- Não, é que

- Ele não lavava a mão e levava ao rosto. A chance de contrair H1N1 era imensa.

- Ah sim. Claro. Entendo. E vocês deram o tempo?

- Não, ele achou que o nosso relacionamento não iria sobreviver ao afastamento.

- E por que ele acharia isso?

- Porque quando eu me afastei assim do Beto, meu ex-namorado, durante o surto de dengue eu acabei conhecendo o Zé.

- E nunca mais encontrou o Beto?

- Ele não tampava as panelas na pia!

- Entendo.

- E ele ainda ficava de boca aberta o tempo todo. Era mais fácil um mosquito se proliferar ali do que num pneu abandonado num terreno baldio.

- Eu imagino.

- E ele contraiu o vírus?

- O Beto?

- O Zé.

- Não. Acho que ele cumpriu com a palavra. Um fofo.

- Hum…

- Não começa com esse hum de novo.

- Não, não. Estava só começando a frase.

- E o que você ia dizer?

- Hum, interessante.

- Você ia dizer “hum, interessante”.

- Ia.

- Danou-se. To perdida mesmo. Onde que eu anotei o telefone da taróloga mesmo?

- Interessante que todas as suas fantasias incorram em violência extrema. Não quer mesmo falar sobre a sua infância?

- Meu Deus do Céu, mas você não desiste mesmo da minha infância! Ok, ela foi ótima, tá? Eu corri, andei de bicicleta e brincava de tacar fogo nos brinquedos das meninas ricas como qualquer criança normal. Agora me diga, de que violência extrema você tá falando?

- …

- …

- …

- …

- …

- Não vai falar? Olha, eu não to aqui pra brincar de vaca amarela não. É melhor falar senão você vai ver quem é que vai comer tudo o que a vaca fez na panela.

- Uma baleia assassina descontrolada.

- O QUÊ?

- Uma vaca manca com moscas incômodas.

- TÁ ME CHAMANDO DO QUÊ?

- Até uma bola infantil que é um lindo símbolo de diversão e pureza de uma criança você viu explodindo.

- LEVANTA DESSA POLTRONA SE FOR HOMEM.

- Maria Lúcia, o que estou dizendo é que em todas as vezes que você retratou seus sentimentos, sempre havia uma agressividade latente.

- VOCÊ QUER VER UMA AGRESSIVIDADE LATENTE?

- Não bastava se ver como uma baleia. Você se via grávida e assassina.

- QUER VER UM ASSASSINATO AQUI?

- Não percebe a contradição? Não vê a criança e o serial killer que vivem dentro de você?

- É só modo de falar. Eu nunca fiz mal a ninguém.

- Acredito que não. Mas querer terminar seus relacionamentos para não contrair doenças também é uma forma de agressão.

- Eu só estava tentando me proteger. Atchim.

- Tem um lenço de papel logo ali.

- Obrigada.

- Por nada.

- É normal um psiquiatra ter uma caixa de lenços para seus pacientes gripados?

- Na verdade, é para quando eles se emocionam.

- Eles choram aqui?

- Choram.

- Que horror.

- Por que, que horror?

- Eu não choro na frente de ninguém. Sempre engoli o choro.

- Vamos falar destes sentimentos refreados?

Lúcia se levanta.

- TÁ ME CHAMANDO DE REPRIMIDA?

- Sente-se Maria Lúcia, por favor. Não estou chamando você de nada.

- ATCHIM.

- Por favor. Sente-se.

- EU JÁ FUI JOANA D´ÁRC EM UMA DAS MINHAS VIDAS PASSADAS, SABIA?

- Acalme-se, Maria Lúcia. Por favor.

- TEM IDEIA DE COMO EU LIDAVA COM MINHAS REPRESSÕES NAQUELA ÉPOCA?

- Tenho certeza que

- ATRAVESSANDO UMA ESPADA NO PEITO DO MEU INIMIGO, ERA ASSIM QUE EU FAZIA.

- Tenho certeza que sim. Tenho certeza que sim. Mas agora isso não será necessário. Não há inimigos aqui.

- NÃO HÁ?

Lúcia começa a andar pelo consultório. Para em frente à janela e coloca a mão no vidro observando a vista.

- Lembro como se fosse hoje daqueles onze dias em Orléans.

- Como?

- Inimigos por todos os lados…

- Maria Lúcia?

- Aqueles malditos ingleses…

- Maria Lúcia?

Flashback

França. 08 de maio de 1429.

Barraca de acampamento. Interior. Noite.

Joana D`Árc entra toda suja de sangue em sua barraca e encontra seu namorado, José Charles.

- Oi Jo, que bom que você chegou. Onde foi que você guardou as minhas cuecas que eu não to achando?

- Que cuecas, José? Eu passo o dia inteiro me matando lá fora pra chegar em casa e ainda tenho que achar suas cuecas? Olha a zona que tá essa barraca. O que que você fez o dia todo?

- Ih, já vi que chegou com o demônio no corpo hoje.

- O que tem pra comer aí?

- Eu fiz aquela sopa que você gosta.

- Sopa de novo?

- O que você queria? Com o pau comendo lá fora não tem a menor condição de ir ao mercado. Você que começou essa luta toda e agora ainda reclama.

- Eu comecei? Agora a culpa é minha?

- Que isso, meu amor. Pra mim você é uma santa. O mundo todo ainda vai enxergar isso.

- Sei. Serve aí essa sopa.

- Assim é que se fala. Me dá aqui esse capacete. Como foi o dia hoje lá na batalha?

- Esplêndido. Acho que amanhã a gente liquida a fatura.

- Que ótimo, meu bem.

- Tá arrumado assim por quê? Vai sair?

-Vou tomar uma cerveja com o pessoal lá na taberna.

- É só eu chegar que você já sai.

- Quem é que passa o dia com quatro mil homens pra lá e pra cá? Você não sabe o que eu tenho que ouvir depois do pessoal.

- O que é agora? Fala.

- Ô Joana, sabe o que é? Esse lance de você ficar usando roupa de homem o tempo todo tá pegando meio mal pro meu lado.

- Como é que é?

- O pessoal tá pegando no meu pé direto, Jo. Será que não dá pra você usar um decote de vez em quando? Pode ser depois da batalha, não tem problema.

- Hã?

- E quem sabe um arco pra dar um jeito nesse cabelo?

- José, eu não to acreditando nisso. Eu to ralando feito uma condenada pela França e você vem me falar de decote? De cabelo?

- To só te dando um toque. Mas…

- Mas o quê?

- Eu acho que você vai acabar se queimando.

- Do que você tá falando?

- Com o pessoal.

- To nem aí pro pessoal.

- Ok,ok. Não tá mais aqui quem falou.

- …

- …

- …

- …

- …

- …

- Tá boa a sopa?

- Razoável.

- …

- …

- …

- …

- E aquele assunto?

- Que assunto?

- Você sabe que assunto.

- De novo isso, José? Você não desiste?

- Até quando você vai continuar com essa história de virgindade? Estamos no século XV, peloamordeDeus!

- Não fale o nome do Senhor em vão!

- Joana, você já tem mais de 18 anos, já é dona do seu nariz. Sabe, é impressionante. Pra algumas coisas você é super precoce, pra outras é uma caretice só.

- José…

- Quantas mulheres da sua idade tem seu exército próprio pra ficar saracutiando por aí?

- Você sabe qu

- Essa história de que chega cansada da guerra é papo pra boi dormir.

- Eu não quero falar disso.

- Você é muito engraçada. Passa o dia todo lá fora no maior pique, mas aqui dentro só nega fogo.

- Olha a blasfêmia!

- Olha quem fala.

- O que você que dizer com isso?

- Às vezes eu acho que você torce para que essa guerra dure cem anos só pra me torturar.

- José, eu já te expliquei. Meu foco é outro.

- Fala a verdade. Você tá saindo com algum soldado?

- José, sinceramente. Só hoje, eu matei 325 ingleses. Eu não to com cabeça pra entrar numa DR agora com você.

- Tá vendo? Nem negar, você nega. Quem é o fulano? É de alta patente?

- NÃO TEM NINGUÉM, EU JÁ FALEI. APENAS DEUS.

- DEUS. DEUS. DEUS. Com esse daí não dá pra competir.

- …

- …

- …

- …

- …

- …

- …

- E aquele outro assunto?

- Qual?

- Você sabe qual.

- Hmpf. Que que tem?

- Você continua ouvindo aquelas vozes?

- São elas que me guiam no campo, José. Você sabe disso.

- E você pensou a respeito do que conversamos?

- São elas que me comandam, José. Não posso deixar de transmiti-las aos meus homens.

- Joana, eu já te falei. Me escuta. Não é uma boa ficar falando sobre essas vozes pra todo mundo.

- Eu cheguei até aqui por causa delas, José.

- É, mas Deus sabe onde isso vai dar.

- Eu não tenho o que temer.

- E se acharem que você é herege, Joana? Já pensou nisso? Pior. E se acharem que você é maluca?

Joana se levanta, pega a espada e aponta em direção a José Charles.

- AAAAAAAAHHHHH! EU NÃO SOU MALUCA!

Joana corre atrás de José mas tropeça no bolo de cuecas no chão e cai, separando-se de sua espada. José parte para cima dela e agarra os dois braços, imobilizando-a.

- NÃO, NÃO, MALUCA NÃO.

Fim do flashback.

Volta para o consultório.

O médico está em cima de Maria Lúcia agarrando os dois braços, imobilizando-a. Ela grita:

- NÃO, NÃO, MALUCA NÃO.

- MARIA LÚCIA, PARE. SOU EU, DOUTOR JACQUES. MARIA LÚCIA!

Continua

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