Dormindo com o inimigo – Parte 4

Consultório. Interior. Dia.

Maria Lúcia está sentada na poltrona com um copo d`água nas mãos.

Doutor Jaques está de frente pra ela, observando-a de uma distância relativamente segura.

 

- …

- …

- …

- …

- …

- …

- …

- …

- Quer um pouco mais d`água?

- …obrigada. Ainda tenho um pouco aqui.

- …

- …

- …

- …

- Tá melhor agora?

- Doutor, o que você acha?

- Do quê?

- Como do quê? Se eu sou maluca ou não.

Doutor Jaques fica olhando fixamente para Maria Lúcia.

- Bem…

- Doutor, você não vai dizer que nosso tempo acabou, né? Eu odeio esses clichês de psiquiatra. Você não é desses, né?

- Não, não. Eu ia dizer que é muito cedo para fazer afirmações.

- Ainda estamos na fase das perguntas?

- Pode se dizer mais ou menos isso.

- Sei…mais ou menos isso…

- Sim, ainda estamos nos conhecendo, Maria Lúcia. Temos muito sobre o que conversar. Por exemplo, por que você não me fala como é o seu dia a dia com o Zé?

- Meu dia a dia?

- Sim, você retratou alguns episódios de crise e desentendimentos, mas a vida de vocês não deve ser feita apenas de turbulências. Como é seu cotidiano, seu café da manhã, seu início de dia?

- Meu café da manhã com o Zé?

- É.

- Ok. Eu vou te contar sobre meu café da manhã.

Flashback.

Cozinha. Interior. Dia.

Zé e Lúcia estão tomando café da manhã.

Zé lê o jornal.

- Inacreditável o resgate desses mineiros, né?

- Nossa, surreal. Fiquei super emocionada.

- Mentira.

- Sério.

- Não sabia.

- Eu até fiz 33 promessas para caso eles saíssem.

- Você fez o quê?

- Uma para cada mineiro.

- Lúcia, não se faz promessas para cada sobrevivente. Você faz só uma caso tudo saia bem.

- E se nem todos os saíssem? Eu não cumpriria a promessa? Seria injusto com os outros.

- Que promessas você fez?

- A primeira foi nunca mais entrar em uma mina no Chile.

- Você nunca entrou em uma mina, Lúcia. Muito menos no Chile.

- Bem, vou manter a coerência então.

- Que promessa você faria se eu estivesse preso lá embaixo?

- Se você saísse de lá segurando uma bandeira do Flamengo eu prometia nunca mais falar com você.

- Que isso, Lúcia. Ia ter câmeras lá por todos os lados.

- Por isso mesmo.

- Eu não só ia sair com a bandeira como ainda ia cantar o hino em cadeia nacional.

- Bom saber. Aí eu podia assistir de casa.

- Pois saiba que o Flamengo já esteve em buracos muito mais profundos que 700 metros.

- E?

- E levou bem mais que 69 dias para sair. Mas saiu.

- Grande coisa.

- Qual foi a sua segunda promessa? Desprezar meu time?

- Me passa o café.

- Dá aqui a xícara que eu te sirvo.

- Obrigada.

- Lúcia, não usa esse adoçante não.

- Você quer o quê? Que eu fique gorda?

- Esse adoçante faz mal, Lú.

- Não vem com frescura pra cima de mim, Zé.

- É verdade. Isso aí dá esclerose e Alzheimer.

- Que esclerose o quê.

- Isso era usado como arma química na guerra do Irã e Iraque.

- Não começa com as suas teorias de conspiração, vai.

- É verdade.

- Ah é? E como era? Os soldados saíam espirrando adoçante uns nos outros?

- Se não quer levar a sério, beleza. Não leva.

- E nos adoçantes que são em pozinho, como eles faziam? Bombas de fumaça? Ou

assopravam nos olhos do inimigo?

- Pode debochar.

- E os agentes secretos, como faziam? Se infiltravam de garçons e colocavam adoçante nos cafés dos seus alvos?

- O que você prefere? Ficar gorda ou esclerosada?

- Que pergunta. ÓBVIO que esclerosada.

- Lúcia.

- Na verdade, é perfeito porque se eu tiver Alzheimer nunca vou me lembrar que estou gorda.

- Também não vai se lembrar de cumprir as 33 promessas.

- Até lá já cumpri.

- E elas vão virar as 33 maldições.

- Vira essa boca pra lá!

- Larga esse adoçante!

Ouve-se um ruído ininteligível.

- Zé, o que foi isso?

- O que foi o quê?

- Você arrotou?

- EU?

- Você arrotou!

- Eu nem abri a boca.

- Mas eu ouvi um barulho vindo de você.

- Ah, deve ter sido um dos meus sons internos.

- Você soltou um arroto interno?

- Lúcia, eu disse sons internos. Não arrotos.

- É a mesma coisa.

- Claro que não. Arrotos internos não são arrotos. Eles nem se enquadram na mesma denominação. Aliás, você não dá uma ordem pro estômago não gerar um arroto interno. Ele tem vida própria.

- Claro que dá. Eu não tenho essas coisas.

- Você devia estar lisonjeada que eu tive o cuidado de não abrir a boca e emitir ruídos e odores que você desgosta. Sabe o que é isso? É consideração. É cuidar do outro. É amor.

- É um arroto. E não há nada de amoroso nisso.

- Tecnicamente, não foi um arroto.

- Tecnicamente?

- No Aurélio, você encontra a seguinte definição para arroto: Arroto. Emissão geralmente ruidosa dos gases do estômago pela boca; eructação, bofada.

- E?

- E não saiu nada pela minha boca. Logo, não foi um arroto.

- Acontece que quem manda nessa casa não é o Aurélio. E a regra é clara. Você terá que ser penalizado.

- O QUÊ? De jeito nenhum!

Fim do Flashback.

Volta para o consultório.

- Qual é a regra?

- É proibido arrotar dentro de casa sob pena de arcar com as conseqüências.

- E qual é a pena?

- A pena? Ah, a pena é magnífica.

Continua.

One thought on “Dormindo com o inimigo – Parte 4

  1. Rita on

    Avzara, passei aqui, li esse último texto e gostei muito, mas muito mesmo. Um ritmo bem legal, muito humor. Quero ler a continuação! beijo, Rita

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>