Dormindo com o inimigo – parte 5

França. 09 de maio de 1429.

 

Barraca de acampamento. Interior. 5 da manhã.

Joseph entra na barraca de mansinho.

- Isso são horas, Jose Charles?

- Ô gatinha, sabe como é, o papo tava bom, a cerveja tava ótima,

- Não me chama de gatinha que pega mal. Já falei isso pra você.

- Mas estamos só nós dois aqui, Joaninha.

- Nem Joaninha. Tá louco? Vai que um dos meus homens escuta.

- “Um dos meus homens”, “um dos meus homens”. EU sou o seu homem e eu chamo você como eu quiser.

Joana coloca a espada em cima da mesa.

- Ô amor, por que você já tá com essa armadura tão cedo? Já vai trabalhar?  Comeu alguma coisa? Aposto que não. Quer que eu prepare alguma coisa?

- To atrasada.

- Peraí Jo, não é assim. Não dá pra ir pra luta de estômago vazio. Deixa que eu vou ali rapidinho na Brasserie do Pierre e trago um croissant pra você.

- Não tenho tempo pra essas frescuras, José Charles. Sinceramente.

- Então leva esse brie aqui e vai comendo no caminho.

- Jose,

- Hummmm, pena que a geléia de damasco acabou.

- Jose, você imagina o que os meus homens vão pensar se me virem comendo um brie a caminho da luta?

- Ah, ninguém vai ver nada. Só um instante que eu vou embrulhar. Vai que você resolve deixar metade pro intervalo.

Ouve-se um ruído ininteligível vindo de Jose Charles.

- Jose, o que foi isso?

- O que foi o quê?

- Você arrotou?

- EU?

- Você arrotou!

- Eu nem abri a boca.

- Mas eu ouvi um barulho vindo de você.

- Deve ter sido um dos meus sons internos.

- Você soltou um arroto interno?

- Joana, eu disse sons internos. Não arrotos.

- É a mesma coisa.

- Claro que não. Arrotos internos não são arrotos. Eles nem se enquadram na mesma denominação. Aliás, você não dá uma ordem pro estômago não gerar um arroto interno. Ele tem vida própria.

- Claro que dá. Eu não tenho essas coisas.

- Você devia estar lisonjeada que eu tive o cuidado de não abrir a boca e emitir ruídos e odores que você desgosta. Sabe o que é isso? É consideração. É cuidar do outro. É amor.

- É um arroto. E não há nada de amoroso nisso.

- Tecnicamente, não foi um arroto.

- Tecnicamente?

- Na Bíblia, você encontra a seguinte definição para arroto: Arroto. Emissão geralmente ruidosa dos gases do estômago pela boca; eructação, bofada.

- Ou seja, coisa do Demo.

- Não saiu nada pela minha boca. Logo, não foi um arroto.

- Então foi uma eructação. Ou pior ainda, uma bofada.

- Joana…

- E também acontece que quem manda nessa casa não é a Bíblia. E a regra é clara. Você terá que ser penalizado.

- O QUÊ? De jeito nenhum!

Fim do Flashback.

São Paulo. 2011. Apartamento de Zé e Lúcia.

Zé está algemado na cama e de olhos vendados. Mãos e pés presos em cada extremidade, formando um X, como na figura clássica do homem vitruviano de Leonardo da Vinci, com a diferença de em vez de estar pelado, exibe uma cueca do Flamengo.

Lúcia está no banheiro lavando uma faca e cantarolando.

- Lúcia, vai demorar muito aí?

- Calma, querido. Só um minutinho.

Lúcia entra no quarto.  Zé levanta e move a cabeça o quanto as algemas permitem, mas não vê nada.

- Lúcia, por favor. Me tira daqui. Tenha piedade.

- Mas eu nem comecei, amor.

- Por favor.

Lúcia vai se aproximando.

- Você não vai sentir nada.

- Eu te imploro , Lúcia.

Lúcia vai deslizando a faca pelo peito de Zé.

- LÚCIA, O QUE QUE É ISSO? SOCORRO!

- Shhhhhh.

- POLÍCIA! ALGUÉM! POR FAVOR!

- Trato é trato, José Carlos.

- SOCORROOOOOO!

- Arrotou, pagou!

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃO.

Lúcia arranca a venda dos olhos dele com a faca.

- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA.

- Quer parar de gritar, ô histérico?

- Você tá maluca? Que negócio é esse dessa faca? Não tinha nada de faca no nosso trato. Você só ia tirar uns cravos e pronto.

- Ah, eu só quis dar um tchãnzinho a mais.

- TCHÃNZINHO? TCHÃNZINHO? VOCÊ ME VENDA, ME ALGEMA E AINDA QUER UM TCHÃNZINHO?

- Quer parar de gritar que já já vão interfonar aqui.

Interfone toca.

- Tá vendo? Deixa eu ir lá. Não sai daí.

Lúcia deixa a faca no criado mudo e sai do quarto.

- Não sai daí…

Lúcia volta.

- Pronto.

- O que você falou?

- Eu disse que a gente tava assistindo O ILUMINADO e você perdeu um pouco o controle.

- Lúcia, eu gritei pela polícia. Ninguém chama a polícia vendo filme de terror.

- Foi o que o porteiro falou.

- E?

- E eu falei que tava na parte do menino com o velotrol conversando com as duas meninas mortas.

- Não é velotrol. É velocípede.

- Você acha mesmo que você se encontra em posição de me corrigir?

- Hmpf. E aí? O que ele disse?

- Ele entendeu.

- Como assim, ele entendeu?

- Quando ele assistiu, ele gritou pelo Chapolin Colorado. Você, pela polícia. Cada um reage de uma maneira.

- O Valdir assiste a Kubrick?

- Por que você acha que a gente paga essa fortuna de condomínio? Temos até um porteiro intelectual.

- Lúcia, me tira daqui.

- Nãnãnina. Primeiro meus cravos.

- Lúcia, você já quase me matou com essa faca, já me desmoralizou com o porteiro, o que mais você quer?

- Meus cravos. O resto é bônus.

- Ai, meu Deus.

- Me diz uma coisa. Com as suas ex-namoradas não era tão divertido assim para espremer cravos, era?

- Era mais calmo, na verdade.

- O QUÊ? VOCÊ DEIXAVA ELAS TIRAREM CRAVO NUMA BOA ENQUANTO EU PRECISO FAZER TRATOS E TE AMARRAR? CADÊ A MINHA FACA?

Fim do flashback.

Volta para o consultório do psiquiatra.

Ele está com os olhos arregalados.

Ela pergunta:

- O que foi?

Continua

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