Dormindo com o inimigo – Parte 8

Consultório do Dr. Jaques. Dia.

 

Zé esta deitado no divã.

- Bem doutor, por onde eu começo?

- Por onde quiser.

- Bem, eu não sou louco.

- Hum rum.

-  E nem a Lúcia.

- Hum rum.

- Ela é só um pouco exagerada, entende? E levemente neurótica, mas qual mulher não é?

- Hummm.

- Eu nunca sugeri a ela vir se tratar por achar que ela fosse louca, ela que levou isso ao pé da letra e aí a coisa deu no que deu.

- Continue.

- Na  verdade é tudo exagero dela, entende? Ela é uma pessoa muito calma, bem tranquila, ponderada, muito sensata, entende?

- Hã rã.

- É só que de vez em quando ela se altera levemente e então temos alguns pequenos desentendimentos sutilmente acalorados.

- Tipo?

Padaria. 7h15. Zé devora um pão com manteiga e um expresso duplo em frente à Lúcia, que come uma salada de frutas. A televisão da padaria está ligada no noticiário.

- Se você mergulhar esse pão com manteiga no café a sua cabeça é a próxima a entrar na xícara.

- Lúcia, que isso. Eu como assim desde criança.

- Fazia. Você não é mais criança. Que nojeira. Isso aqui é um lugar público, a gente tá na rua, pelamordeDeus.

- Tá bem, tá bem. Eu faço só em casa.

- Bebeu? Só se eu não estiver na cidade.

- Lúcia, posso tomar meu café e ver um pouco do jornal?

- …

- …

- Tenho a maior pena de quem tem profissão que coloca a vida dos outros em perigo, sabe?

- Hã rã.

- A pessoa não pode errar.

- Hã rã.

- Médico… piloto de avião… esse comandante do transatlântico italiano…

- …goleiro…

- Quê?

- Goleiro. Goleiro é foda, Lúcia. Não pode errar também não.

- José Carlos, será que é impossível a gente ter uma conversa séria?

- E quem não tá falando sério aqui?

- Goleiro, Zé Carlos?

- É uma das piores profissões do planeta, Lúcia. Você não sabe quantos já morreram por causa deles. Incluindo eles próprios.

- Tá, tá, tá. Deixa eu ver o resto do jornal.

- Você acha o quê? Que goleiro abandona o time que nem esse capitão fugiu do navio?

- Zé, você teria ficado até o navio afundar?

- Maria Lúcia, esse é o trabalho do capitão. Ele não foi pego desavisado. Não chegaram um dia para ele e disseram “Ah, Capitão, não se esqueça, se um dia seu navio afundar, você é o último a sair, hein”. Ele já sabe disse desde o primeiro dia.

- Eu acho que ele podia ter deixado tudo organizado e ido embora antes. Ainda mais um capitão bonitão daqueles.

- Ah, se fosse feio então tudo bem de virar comida de tubarão?

- Não é isso que estou dizendo.

- Lúcia, imagina que esse meu pão aqui é o navio. E que esse café é o mediterrâneo.

- Oi, moça, por favor, você poderia trazer a conta?

Consultório do Dr. Jaques. Dia.

Zé esta deitado no divã.

- E seu navio afundou no mar mediterrâneo?

- Não, um tsunami apareceu e destruiu tudo.

- Entendo.

- Mas o problema verdadeiro foi na última vez que nós fomos andar no Ibirapuera. Ela te falou sobre isso?

- Não posso dar informações sobre outros pacientes, lamento.

- Escuta aqui. Eu só to aqui porque concordei com essa loucura toda. E porque você mandou aqueles gorilas do hospício lá em casa me buscar.

- Casa de Saúde.

- Hospício. E eu topei vir aqui pra por um ponto final nessa história toda. Só que eu entendo dessa história toda que atender dois pacientes que se conhecem é anti ético, ainda mais marido e mulher.

- Namoridos, você quer dizer.

- O que eu quero dizer é que eu posso te denunciar e você vai acabar sua carreira atendendo pela internet sob pseudônimos bizarros, como Mariposa Freudiana ou Libélula Inconsciente.

- Onde você quer chegar?

- Que você tem que colaborar um pouco. É uma pergunta simples. Você sabe do Caso Ibirapuera ou não sabe?

- Não.

- Ótimo. Então chegou a hora de você  saber a verdade.

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