Dormindo com o inimigo – Parte 7

Apartamento de Zé e Lúcia. Quarto. Noite.

 

Zé está algemado na cama com as mãos e pés presos em cada extremidade, formando um X.

Lúcia está em uma poltrona afiando uma faca em um amolador.

- Então quer dizer que não vai abrir o bico?

- Lúcia, pára com isso. Não tenho nada pra falar.

- Eu quero nomes, José Carlos. Nomes e datas.

- Que nomes, Maria Lúcia? Que nomes? Do que você está falando?

- Os nomes das vagabundas que você deixava espremer seus cravos. Não se faça de desentendido.

- Você tem noção do nível da sua loucura?

- Se eu fosse você, não me chamava de louca não.

- Você acha que eu tenho medo de você?

Lúcia pula em cima de Zé Carlos e coloca a faca no rosto dele. Ele fica imóvel.

- Tá vendo essa craterazinha aqui na sua bochecha? Tá vendo? Sabe o que é isso? Sabe? É um cravo mal tirado. Eu sei muito bem quando eu vejo um.

- Tira essa faca da minha cara.

- Quem foi que fez esse trabalho de porco?

- Ninguém.

- Não mente.

- Ninguém.

- É melhor não mentir.

-Já falei. Não foi ninguém.

- E essa cratera surgiu aí sozinha?

- E eu vou saber, Lúcia?

- José Carlos, é melhor você me contar quem colocou as mãos aí.

- Tá bom. Tá bom.

- Finalmente. Quem foi?

- Fui eu.

- …

- Quê? Fui eu mesmo. Eu era adolescente, não pegava ninguém, achei que a culpa era desse cravo, resolvi espremer e aí já viu né, deu tudo errado, fui parar no hospital e peguei uma inflamação, uma infecção e um complexo de rejeição.

- José Carlos, José Carlos. To te avisando. Você tá brincando com fogo.

- É verdade. Foi isso mesmo.

- Você acha mesmo que eu vou cair nessa história ridícula?

- Não chama minha adolescência de ridícula não.

- Você acha que eu sou tão otária assim?

- Eu…

- Cuidado com o que você vai responder.

- Não Lúci

- QUEM ESPREMEU ESSE CRAVO?

- Foi a Tamara.

- Eu sabia! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh!

Lúcia arremessa a faca que voa por todo o quarto e finca na porta do armário.

- LÚCIA! QUE ISSO!

- Eu sabia, eu sabia, eu sabia! Que ódio! Logo ela, Zé? Logo ela? Tinha que ser ela?

- Lúcia, esse cravo não teve a menor importância. Foi um cravinho assim à toa, não teve nenhum significado para mim.

- NÃO TEVE IMPORTÂNCIA?

- Não, nenhuma. Minha cabeça estava em outro lugar. Pra falar a verdade eu fiquei pensando naquele gol de voleio do Bebeto contra a Argentina.

- O que piora tudo ainda mais, você não vê? Se tivesse havido sentimentos, pelo menos, minha dor seria menor. Mas um cravo tirado assim, como uma aventura, não posso aceitar uma traição dessas.

- Traição? Mas eu nem conhecia você na época, Lúcia!

- Mas me conhece agora, José Carlos. E eu conheço quem fez isso em você. E isso muda tudo. Toda vez que eu olhar para você agora vou ver esse buraco de cravo e vou me lembrar daquela garota em cima de você, te acariciando, procurando o próximo cravo, fazendo caretas ao espremer e cara de prazer ao limpar os dedos na sua camisa. Não sei se vou agüentar isso.

- Mas isso ficou no passado, Lúcia. Vamos virar essa página.

- Existem cicatrizes, José Carlos! Cicatrizes! Olha seu rosto!

Lúcia abre a gaveta do criado mudo e pega um espelho.

- Olha a marca dela aqui. Olha! Dá pra ver até o nome dela aqui. A cachorra.

- Ah não.

- ANÃO? ANÃO? Aquele anão também tava metido nesse cravo? Ah, mas você vai me contar essa história direitinho. Cadê a minha faca?

Continua

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