Dormindo com o inimigo – Parte 9

Parque Ibirapuera. Manhã de domingo. Zé e Lúcia estão sentados em um banco, suados, bebendo água de côco.

 

- Zé, você já brigou alguma vez?

- O quê?

- Já saiu na mão com alguém?

- Que isso, Lúcia?

- Já cobriu alguém de porrada?

- Da onde surgiu isso?

- Curiosidade só.

- Sei.

- E aí?

- E aí o quê?

- Já brigou ou não?

- Prefiro não falar sobre isso.

- O queeeeeeeeeeeee?

- …

- Você apanhou?

- Realmente eu não gostaria de falar sobre isso.

- Foi hospitalizado?

- Que horas é o jogo hoje?

- O que foi? Me conta!

- Não.

- Por favor.

- Não quero.

- Conta.

- Não posso.

- Conta logo.

- Lúcia, não!

- Zé Carlos, o que aconteceu?

- A gente pode mudar de assunto?

- Não vai me dizer que você foooooooooooooooooi…

- NÃO, LÚCIA! QUE ISSO.

- Num seeeeei, vai que… desse jeito que você tá falando…

- É que…

- O QUÊ?

- …eu nunca briguei.

- Como é?

- Tá vendo? Eu não queria ter falado.

- É sério?

- Podemos mudar de assunto agora?

- Não acredito.

- É verdade.

- Ai, amor, que fofo.

- Que fofo o quê.

- Eu acho fofo. Meio esquisito, mas fofo.

- É a minha maior frustração.

- Nunca ter brigado?

- Nunca ter dado um soco em ninguém.

- E por que isso, Zé?

- Eu prefiro não falar.

- Foi falta de oportunidade?

- Lúcia, sério. Para.

- Zé, responde!

- É que eu… eu sempre acreditei no diálogo.

- Aaaaaaahhhh, faça-me o favor, José Carlos. Que papinho é esse?

- É verdade. Eu sempre optei pelo entendimento.

- Conta outra.

- Tipo Ghandi, sabe?

- Aaaaah, mas não se preocupe que eu arrumo uma briga pra você num instante.

- Quê?

- Deixa comigo.

- Lúcia, que isso? Eu não quero brigar com ninguém.

- Como não quer? Não é a maior frustração da sua vida?

- É, mas eu resolvo isso no Playstation.

- Que Playstation o quê. Vai resolver isso na vida real. Olha aquele sujeito ali.

- Que sujeito?

- Ele é perfeito.

- Quem?

- Aquele ali de vermelho.

- Aquele cara é gigante, Lúcia! Você bebeu?

- Se prepara que eu vou agenciar a sua primeira luta.

- QUÊ?

- Ô VIADO!

O gigante se vira.

- É VOCÊ MESMO AÍ, Ô BOIOLÃO!

Consultório do Dr. Jaques. Dia.

Zé esta deitado no divã.

- E o que aconteceu?

- O que aconteceu? A gente saiu correndo até o carro e nunca mais voltou ao Ibirapuera.

- Hummmm.

- Hummmm? É isso que você tem a dizer depois disso? Quem é a psicopata agora?

- Ela mencionou aqui algo a respeito de um certo anão.

- Ah, você quer saber do anão. Ok. Vamos falar do maldito anão.

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