Dormindo com o inimigo – Parte 6

Consultório. Interior. Dia.

 

- Que cara é essa, Doutor? Tá achando o quê? Que eu sou maluca?

- Não, não, não. Absolutamente. Eu recebo todos os dias aqui pessoas que amarram seus namorados para

- Namorido.

- Como?

- Namorido. Namorado não. Namorido.

- Sim. Namorido. Claro. Namorido. Enfim, é algo muito comum as pessoas amarrarem seus namoridos por causa de um arroto e

- Você acha que é pouco?

- Essa não é a questão. Eu só estou tentando

-Você acha que ele não merece? Que eu sou exagerada. Então ouve só. Teve uma vez que eu tava em casa assistindo ao finalzinho de Uma Linda Mulher na parte que o Richard Gere vem numa limusine branca até o apartamento da Julia Roberts quando

Sala. Interior. Noite.

Zé entra na sala abrindo uma cerveja.

Lúcia pausa o filme.

- Zé, qual foi o dia mais feliz da sua vida até hoje?

- Vinte e dois de fevereiro de 1995.

- Nossa, mas sabe assim de bate pronto. Mas…esse não foi o dia que você me conheceu.

- Não, eu ainda tava no colégio.

- Você tinha quanto? 16?

- 17.

- E o que aconteceu de tão bom nesse dia?

- Foi quando eu ganhei todas as partidas de futebol durante o recreio.

Lúcia olha, incrédula.

- Foram 7 jogos e saímos invictos. Eu, o Paulo e o Caveira. Os reis do recreio.

- O Caveira?

- É. Nunca te falei do Caveira? Cruzava na medida.

- Na medida pra quê?

- Pro gol, Lúcia. Como pra quê?

- Não. Você nunca falou do Caveira. Mas já já vai aparecer uma outra por aqui.

- Era 3 contra 3, sem goleiro. Só valia gol dentro da área. Fora, só de cabeça ou contra. Quem fizesse dois primeiro ganhava. Entendeu?

Lúcia cruza os braços.

- E o segundo dia mais feliz da sua vida? Qual foi?

- Quatro de julho de 99. Claro.

- Claro. Quando exatamente aconteceu o quê?

- Foi quando o Palermo perdeu três pênaltis contra a Colômbia no mesmo jogo na Copa América. Um no travessão, um por cima e o outro o goleiro pegou. Você não lembra?

- Então quer dizer que o Caveira e o Palermo são mais importantes que a Palerma aqui?

- Nããããããããããããããããããããããão, meu coração! Que que é isso? Esses foram os dias que eu mais gostei antes de conhecer você! Só depois que eu te conheci que a vida passou a fazer sentido.

- Sei.

- É verdade.

-Mentira.

- Que isso, mor?

- Prova.

- Provar?

- É. Prova.

- Provar como?

- Se eu disser não vai valer.

- Você não gosta de facilitar, né?

- Me diz uma coisa.

- Duas.

-Por que você nunca veio me buscar em casa com uma limusine branca com flores na mão?

Zé vira a cabeça e olha para a tv. Richard Gere segura um guarda-chuva em uma mão e flores na outra. Ao seu redor, uma limusine branca. Zé começa a andar de um lado para o outro da sala.

-Lúcia, eu não falei para você parar de assistir a esses filmes?

- Responde.

Zé anda de um lado para o outro gesticulando.

- Não existem limusines brancas! É tudo computação gráfica! Olha ali o cromaqui vazando!

- O que é cromaqui?

- É quando eles filmam tudo com aquele fundo azul para depois aplicar os efeitos especiais. Nunca viu aqueles making ofs que os atores ficam pulando e dando cambalhota num fundo azul?

- Fundo azul? Zé, do que você tá falando? Que efeitos especiais? Isso é um romance! Eu to falando de amor! De paixão! De entrega!

- AI!

Zé leva a mão na coxa e começa a mancar. Se segura na parede para não cair.

- O que foi?

- Eu não sei.

- O que foi?

- Acho que foi uma fisgada.

- Foi o quê?

- Uma fisgada.

- Uma fisgada?

- É. Do nada.

- Como assim do nada?

- Eu tava andando normalmente e de repente, pá! Senti uma fisgada aqui na parte de trás da coxa. Tipo o Romário em 95.

- Oi?

- Flamengo x Grêmio, 1995.

- Do que você tá falando? Do terceiro dia mais feliz da sua vida?

- Tinha tudo pra ser. Se não fosse o Jardel, talvez até fosse.

- Do que você tá falando?

- Flamengo 2 a 1 no Grêmio. Maracanã. Semi-final da Copa do Brasil.

- É sério isso?

- Você não lembra? Quando o Sávio caminhou no ar com a bola pra marcar aquele golaço?

- Tipo Jesus Cristo?

- Ele caminhou no ar. Não na água.

- Água, ar, tanto faz.

- Tanto faz nada. Só duas pessoas caminharam na água. Cristo e o Remo.

- Remo? Que Remo?

- Remo. Desarmado e perigoso.

- E aquele cara no youtube? Ele não deu uns dez passos na água?

- AQUILO é efeito especial. Lá tem cromaqui pra tudo que é lado.

- E o Romário?

- Que que tem?

- Também usava cromaqui?

- Não. Ele era real.

- E por que essa conversa começou mesmo?

Zé aponta para a coxa.

- Ah sim. Sua perna.

- Depois que o Sávio caminhou no ar, o Romário sentiu uma fisgada mo músculo adutor da coxa.

- José Carlos, você nem sabe o que é um músculo adutor da coxa.

- Todo homem que se preza sabe o que é o músculo adutor da coxa.

- E onde é?

- Acima do tendão patelar.

- Ah, fala sério.

- AI!

- Tá doendo?

- Deixa eu sentar.

- Senta aqui.

- Chega pra lá um pouquinho.

- Zé?

- Oi.

- Você já viu alguma limusine em fundo azul?

Consultório. Interior. Dia.

- Tá entendendo a gravidade da coisa agora, Doutor?

- Hum.

- Eu sei que ele não sentiu fisgada nenhuma. Que nem o Romário.

- Hum.

- Tá feia a coisa, não é Doutor?

- Hum.

- Mas se você tá dando um jeito na Tamara, tenho certeza que o Zé vai ser moleza para você. Aquela lá é tarja negra.

- Achei que estávamos aqui para cuidar de você.

- Não. Sim. É que é assim: primeiro você vê se eu sou louca. Se eu for, o culpado é o Zé. Óbvio. Aí a gente cuida dele. E por conseqüência direta, de mim.

- Quem é Tamara?

- Tamara? A Tamara, ora.

- Eu conheço a Tamara?

- Tamara  Fonseca. Paciente sua.

- Que estranho. Não tenho nenhuma paciente Tamara.

- Como assim, não tem?

- Não tenho.

-Tem certeza?

- Sim, absoluta.

- Ué, que estranho.

Seis anos atrás. Apartamento de Zé e Tamara. Tamara e um policial estão na porta. Ele, de saída.

- O anão vai comigo. Eu vou aliviar pro lado da senhora dessa vez. Mas procura esse psiquiatra aqui. A senhora precisa muito. Toma aqui o cartão dele.

Continua.

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