É nóis

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Apesar de muitos acharem, as piores coisas do casamento não são:

1- Discutir a relação

2- Festa de criança na hora do jogo

3- Greve de sexo

4- O excesso de intimidade (que leva a fazer número 1 e 2 de porta aberta)

5- Dores de cabeça constantes (o que não deixa de ser uma greve de sexo não declarada)

(Sogra ir morar junto não conta. Não sabe brincar, não desce pro play.)

As piores coisas do casamento têm nome e sobrenome: Amigos Solteiros.

Sala. Interna. Noite.

Telefone toca. Zé atende.

 

- Alô.

- Fala Zé.

- E aí, Cláudio? Beleza?

- Beleza pura e você?

- Tranqüilo. Que mandas?

- Cara, lembra daquela gostosa que eu te falei na semana passada?

- Aquela do peitão gigantesco da tua academia ou a loira “morre fácil” do prédio da tua mãe?

- Não cara, nenhuma das duas. Essas eu te falei na semana retrasada. To falando da japinha show de bola, lembra?

- Ah sei. Aquela que tu chegou junto na fila do banco que ainda não tinha se decidido se era lésbica ou não.

- Bissexual, cara. Bissexual.

- Sei. Que que tem?

- Então, ela tá passando aqui agora pra gente chegar no apartamento de uma amiga dela que é bi com certeza que eu já vi as fotos no Orkut e você não acredita como ela é gostosa. Bora?

- TÁ MALUCO, IDIOTA? COMO VOCÊ LIGA AQUI PRA CASA PRA FALAR ISSO? ESSA LINHA NÃO É SEGURA. TU TEM MERDA NA CABEÇA?

- Tá ligado no que você vai perder?

- QUEM É VOCÊ? ALÔ? EU NÃO SEI QUEM VOCÊ É. NÚMERO ERRADO! NÚMERO ERRADO!

Zé desliga nervoso.

Lúcia fala do quarto:

- Quem era, amor?

- Sujeito mais idiota.

- Zé, quem era?

- Hã? Ah, ninguém não.

- Achei que você tava conversando com a pessoa.

- Era trote.

- Trote?

- Sabe aquele trote que a pessoa vai te enrolando até que no fim faz uma piada sem graça? Coisa de adolescente.

- Mas era trote ou era engano? Você não tava gritando que era número errado?

- Não, eu tava gritando “seu aloprado”. Sabe como é, não vou xingar umas crianças que não tem o que fazer numa sexta à noite, né.

- Sei.

- Você não vem aqui pra sala? Já tá no ponto.

- To indo, só um instante.

- …como pode ser tão idiota?

- Zé, teu celular tá apitando aqui. Deve ser mensagem.

-…é um irresponsável.

- É uma mensagem sim. É do Cláudio.

- O QUE? ME DÁ ISSO AQUI.

- “Arrá, urrú, Japinha show de bola. É nóis.” O que é isso, Zé?

- Eu falei pra me dar isso aqui.

- Quem é Japinha show de bola, José Carlos?

- Como pode ser tão idiota?

- JOSÉ CARLOS, QUEM É JAPINHA SHOW DE BOLA?

- Calma, mulher. É um lateral direito que o Flamengo contratou.

- E por que o Cláudio te escreveu se ele é vascaíno?

- Porque é um idiota.

- JOSÉ CARLOS, FALA A VERDADE.

- É porque esse Japa é horrível, Lúcia. Ele jogou no Vasco, no Guarani, no XV, nenhum time queria e o Flamengo pra variar fez mais uma belíssima contratação.

- Sei. Vê se tá escrito otária na minha testa.

- É sério.

- “É nóis”.

- É o jeito de falar dessa bicha.

- Me dá esse celular aqui.

- Pra quê?

- Eu vou confirmar essa história com ele.

- Tá louca? Que isso?

- Tá com medo?

- Você tá sendo ridícula, Lúcia. Eu não tenho porque ter medo.

- Além de otária, agora eu sou ridícula?

- Lúcia, você consegue me imaginar ligando pra uma amiga sua pra confirmar uma história?

- Claro que não. Eu não te dou motivo.

- Deixa de ser boba.

- Me deixa confirmar a história.

- Pára, Lú.

- Me dá.

- Beleza, Lúcia. Toma o celular. Liga pra ele. Acaba logo com isso.

- Obrigada.

- Você sabe bem o que você tá fazendo, né?

- O que eu to fazendo?

- Destruindo tudo que existe entre nós.

- Não começa, Zé Carlos.

- Não importa o que ele disser, Lúcia. Se você apertar esse botão, toda a confiança mútua que sustenta essa relação vai por água abaixo. Só tenha isso em mente antes de continuar com essa cena ridícula.

- Ridículo é você com esse papo furado.

- Então confiança mútua é papo furado pra você, Maria Lúcia? Respeito, cumplicidade, companheirismo então são lixo, né? Não passam de bobagens pra vo

Ela aperta o botão.

Ele fica de queixo caído. Começa a tirar as roupas do armário e colocar numa mochila.

- Tchau, Lúcia. Acabou tudo.

- “Oi, aqui é o Cláudio. Agora não posso atender. Deixe um recado depois do sinal. É nóis”.

- “É nóis”.

- Que nóis, o quê. Não tem mais nada entre nóis.

- Ele fala muito “é nóis”?

- Fala. E eu não tenho mais nada pra falar com você. To indo.

Ela fica olhando pro celular.

- Ô amor desculpa, eu sou uma boba mesmo, você sabe, eu faço as coisas assim sem pensar, me perdoa por favor?

- Tchau, Lúcia. Depois eu volto pra pegar o resto das cosas quando você não estiver aí.

- Para Zé. Desculpa duvidar de você. Você tem toda razão, claro que confiança mútua, respeito, cumplicidade e companheirismo são tudo que há de mais importante nessa vida. Me desculpa por favor, larga essa mochila.

- Vai parar então com essa palhaçada de ligar pros meus amigos duvidando de mim?

- Vou, vou, já parei, já parei. Desculpa.

- E vai pra sala pra gente terminar de ver o Rocky 4 que a gente parou justo quando o Gorbachov se levanta e bate palma pro Rocky?

- Vou, vou.

- Mas agora a gente vai ter que ver tudo de novo desde o início e você não pode dormir.

- Tudo bem. Tudo bem.

- Então vamos.

2 horas depois.

Lúcia está roncando no sofá.

Rocky Balboa está dizendo que se ele pode mudar, se os russos podem mudar, então o mundo inteiro pode mudar.

E o celular do Zé vibra com mais uma mensagem.

“É nóis”.

3 thoughts on “É nóis

  1. Eu on

    Esse Zé é aquariano! Capacidade monstra de inverter o jogo. CRETINO!

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