H1 N1

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Sala. Interna. Noite.

Zé está assistindo a tv. Lúcia senta ao lado dele.

 

- Zé, a gente precisa conversar.

- Hã-rãm.

- Zé, desliga essa tv que eu tenho que te falar uma coisa.

- Você sabia que o Santa Cruz tá na quarta divisão?

- Zé.

- Ele caiu três vezes seguidas que nem o Fluminense mas com ele não teve convite pra subir de divisão.

- Zé.

- Que injustiça. Imagina como deve ser torcer pro Santa Cruz.

- Zé, eu não faço idéia do que seja o Santa Cruz e não to nem aí pra isso. A gente pode conversar? É importante.

- Como assim não sabe o que é o Santa Cruz? Onde você tava em 87 na Copa União quando o Zico deu aquela bicicleta no travessão?

Lúcia arranca a tv da tomada.

- É. Acho que você não tava no Maracanã.

- Não, não tava.

- Que que foi?

- Eu acho melhor a gente dar um tempo, Zé.

- Como assim? O que foi dessa vez?

- Zé, escuta.

- Foi por causa do jantar com seus pais? Eu pedi desculpas, não foi?

- Não Zé, não é nada disso.

- Lúcia, fala logo o que aconteceu.

- Não é o que aconteceu. É o que vai acontecer.

- Ai meu Deus. Você se apaixonou por outro. Não acredito. Quem é ele? O que ele faz? Pra que time ele torce?

- Não é nada disso, Zé.

- Ele não gosta de futebol? Nossa, é muito pior do que imaginei. Ele gosta de vôlei, é?

- Não tem “ele”, Zé. Não tem ninguém. Me escuta.

- Ele é tijucano? Tijucano é foda, né Lúcia.

- Zé, ESCUTA.

- Tá, fala. Não precisa gritar.

- É por causa da gripe, Zé.

- Você tá gritando por causa da gripe?

- Não, eu quero dar um tempo por causa da gripe.

- Que gripe?

- A suína.

- Mas que que a gente tem a ver com essa gripe, ô maluca?

- Não me chama de maluca que eu já te falei mil vezes que eu não gosto.

- Desculpa meu docinho de coco, minha pasta de amendoim, razão da minha existência. Me explica por favor para este ser ignorante qual seria a óbvia relação entre a gripe suína e o término do nosso maravilhoso relacionamento?

- Término não. Tempo.

- Sim. Tempo.

- Você sabe que a gente tem que lavar a mão o tempo todo agora né?

- Sei.

- E que não pode levar a mão ao rosto sem lavar não é?

- Sei sim. E daí?

- E eu andei observando você nos últimos dias, Zé…

- e…?

- Zé, eu vou te perguntar uma coisa mas você não pode mentir, tá? Eu quero que você seja sincero comigo como nunca foi em toda a sua vida porque isso é uma questão de vida ou morte.

- Eu sempre fui muito sincero com você, amor.

- Mas eu quero que agora você seja mais do que sempre foi.

- O que é? O que é?

- Zé, me diz só o seguinte. Se você nunca lava a mão DEPOIS que tira meleca, qual é a chance de você lavar a mão ANTES de tirar meleca?

- …

- Fala a verdade, Zé. Por favor, não mente.

- …

- Zé!

- Você não pode estar falando sério.

- Fala a verdade.

- Eu não to acreditando.

- Zé, você faz parte do maior grupo de risco do planeta.

- Você pirou de vez.

- Para e pensa, Zé.

- Lúcia, eu te pedi desculpas pelo que eu fiz na frente dos seus pais. Eu fiquei mal com aquilo.

- Zé, olha só. Eu já te perdoei por ter ensinado meu irmão a fazer peteleco de meleca durante o jantar.

- Isso não é uma coisa que se ensina. A pessoa já nasce sabendo.

- E a mirar no garçom? A pessoa também já nasce sabendo?

- Eu me desculpei na frente de todo mundo.

- Eu sei, amor. Você é um fofo. Não existe homem igual a você. Eu já esqueci disso tudo. Minha mãe também já esqueceu. Meu pai eu não sei, mas pela minha mãe eu sei que tá tudo bem. É só que isso tudo me fez pensar sobre nós, sobre nosso futuro…

- E você acha que a solução é a gente se separar.

- Só até saírem os resultados desse inverno no hemisfério norte. É coisa rápida.

- …

- Zé…

- E até lá, você vai viver numa bolha?

- Não, na casa da minha mãe. Lá ninguém faz essas coisas nojentas.

- Seu irmão faz.

- Ele parou. Meu pai ameaçou dar o Playstation II para o primo dele.

- Então é por isso que você estava mais distante esses dias. Nem me beijava mais. Dizia que era meu mau hálito.

- Zé, não faz isso mais difícil do que já é.

- Sou eu quem to dificultando as coisas, Lúcia? Tem certeza?

- É para o nosso bem. Eu acho melhor.

- Lembra quando você também pediu um tempo pro Beto porque ele se esquecia de tampar a panela?

- Mas era surto de dengue, Zé. Não podia arriscar daquele jeito com aquela águinha ali parada.

- Você que surtou, Lúcia.

- Zé, eu vou embora.

- Péra. Ouça. Depois que o surto de dengue passou você e o Beto voltaram?

- Não, eu conheci você.

- Então, vai que você conhece alguém.

- É um risco que a gente tem que correr.

- Não, Lúcia. A gente não precisa disso.

- E o que você sugere então?

- Eu vou mudar. Não vou mais tirar meleca.

- Até parece.

- Sério, não vou mais.

- Como eu posso acreditar em você, Zé Carlos?

- Já sei. Vem cá.

- O quê?

- Você tá com um cílio aqui perto do olho. Me dá aqui o seu dedo. Faz um desejo.

- Deixa eu pensar.

- Fez?

- Ainda não.

- Fez?

- Quase.

- Ô Lúcia, não é possível.

- Pronto, fiz.

- Deixa eu ver com quem ficou…

- Com você!

- Pronto! Problema resolvido!

- Por quê?

- Eu desejei nunca mais tirar meleca!

- Então a gente não precisa mais dar um tempo?

- Não!

- Que bom, meu amor!

- Me dá um abraço.

- Mas Zé…

- Oi.

- Esse dedo que você enfiou no meu olho agora…tava limpo?

3 thoughts on “H1 N1

  1. Lulu on

    Avzara, acabo de fazer um intensivo aqui, li tudo e adorei!!
    Bom demais!
    : )

    Bjs

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