Mathias – A triste saga de um barangueiro confesso (Parte 2)

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Sala.Interior. Noite.

Lúcia, Zé e Mathias estão sentados à mesa da sala. Zé e Mathias em uma ponta. Lúcia na outra. Lúcia está com uma tolha branca enrolada na cabeça. Na sua frente, estão quatro fotos: todas viradas de cabeça para baixo.

 

Zé: Lúcia, que toalha na cabeça é essa?

Lúcia: José Carlos, certas coisas não se questionam. Apenas se aceitam.

Zé: Pronto. Começou a maluquice.

Lúcia: Se vai começar a me chamar de maluca, pode se levantar e sair da sala que o papo nem é com você mesmo.

Zé: Não, não, imagina. Maluco sou eu que esqueci a minha toalha na cabeça. Eu vou lá no banheiro pegar. Deve dar a maior onda.

Zé se levanta.

Lúcia: JOSÉ CARLOS, SENTE-SE AGORA MESMO.

Zé obedece.

Lúcia: Podemos começar?

Mathias: Lúcia, o que você tem aí?

Lúcia: Mathias, o que temos aqui são quatro opções que quase homem nenhum possui o privilégio de receber. São quatro chances de você permitir que a felicidade entre na sua vida e faça de você um homem completo.

Zé e Mathias se olham incrédulos sem dizer nada.

Lúcia: Aqui estão fotos de quatro amigas minhas maravilhosas. Quatro verdadeiros exemplos de tudo que um ser humano gostaria de ser.

Zé: Fotos de biquíni? Frente e verso?

Lúcia encara Zé.

Zé: Que foi? Isso é importante, Lú. O Mathias tem trauma de celulite. Não é?

Mathias: Nem gosto de lembrar.

Lúcia: Como eu estava dizendo, são quatro mulheres extraordinárias, todas merecedoras de uma menção honrosa da UNESCO, de um Prêmio Nobel da Paz, dignas de

Zé: Você não incluiu a Márcia aí não, né?

Lúcia: A Márcia? Por quê?

Zé: Não foi ela que pediu Quarteirão com Queijo no dia do Mc Dia Feliz?

Lúcia (retirando uma das fotos da mesa): Então, são três mulheres espetaculares que

Mathias: Meu Deus.

Zé: Ela sempre tenta empurrar a Márcia pra alguém. É impressionante.

Lúcia: E você sempre faz questão de

Mathias: A gente pode ir logo pra sua amiga do intercâmbio da Suécia?

Lúcia: Sabe Ma, posso te chamar de Ma, né? Eu acho super legal esse seu lance com documentários. Fala muito de você. Mostra o quanto você é um homem maduro, interessante, sensível, que não pensa só em jogos de futebol, em filmes de ação tipo Comando para Matar, Duro de Morrer,

Zé: É Duro de Matar.

Lúcia: Duro de Matar, Duro de Morrer, Duro de Assistir, tudo a mesma coisa edificante. De qualquer forma, dá pra ver que você é um homem que quer mais da vida. Por isso eu pensei na Estelinha.

Zé: A ESTELINHA????

Lúcia: A Estelinha é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço. Bonita, independente, uma mulher pra cima, sabe?

Lúcia mostra a foto.

Mathias: Lúcia, que isso? Só dá pra ver os olhos dela aí.

Lúcia: E que olhos, não?

Mathias: Como assim, Lúcia?

Lúcia: Ma, deixa eu te falar. A Estelinha é uma fofa.

Zé: Ela quer dizer gorda.

Lúcia: Muito simpática.

Zé: Muito gorda.

Lúcia: Domina qualquer assunto.

Zé: E ainda fala pra caralho.

Lúcia: QUE QUE HÁ?

Zé: Sabe aquelas que não calam a boca nem debaixo d`água?

Lúcia: José Carlos, ela é minha amiga! Olha como você fala dela.

Zé: E esse aqui é meu amigo! Olha o que você tá querendo empurrar pra ele.

Lúcia: Pois fique sabendo que a Estelinha é uma mulher super bem resolvida, independente. Ela consegue abrir um vidro de azeitona sozinha, sabia? Ela não precisa de homem. E é isso que faz os homens terem medo de uma mulher como essa.

Zé: O que dá medo é que ela come sozinha o vidro de azeitona inteiro.

Lúcia: Você é nojento.

Mathias: Podemos prosseguir?

Lúcia (tirando da mesa mais uma foto): Ok. Desculpe. Mas da próxima você não vai se arrepender. Se eu fosse homem eu mesma ficaria com ela.

Mathias: É a da Suécia?

Lúcia: Nossa, mas esse documentário te marcou mesmo, hein?

Mathias: Que documentário?

Lúcia: Enfim. Mathias, eu quero agora que você feche os olhos e imagine a mulher perfeita.

Mathias olha pra Zé que faz sinal para ele não fechar os olhos.

Mathias fecha.

Lúcia: Cabelos: loiros. Olhos: Azuis. Altura: 1,77.

Zé: Busto?

Mathias abre os olhos.

Lúcia: Ca-la-bo-ca.

Zé: Vai dizer agora que o busto não é importante?

Lúcia: Zé, assim você quebra a magia de tudo.

Zé: Pelo contrário, amor. É exatamente no busto que está a magia de tudo.

Mathias: Nisso ele tem razão, Lúcia.

Lúcia: Eu não sei o tamanho do busto dela.

Zé e Mathias se desinteressam.

Zé: Melhor ir pra outra.

Mathias: É, também acho. Qual é a próxima?

Lúcia: Mas eu não terminei ainda.

Zé: Eu não vou deixar você apresentar pra ele uma amiga que não tem peito.

Lúcia: Mas quem disse que ela não tem peito? Claro que ela tem peito. Eu só falei que não sei o tamanho do peito.

Zé: Então é fácil. Pensa numa fruta.

Lúcia: Oi?

Zé: Se você não sabe a centimetragem do peito dela, use a segunda forma mais conhecida no hemisfério sul para medir peitos: frutas.

Lúcia: Frutas?

Zé: Se ela tem peito, então o peito dela com certeza não é do tamanho de uma jabuticaba, ou na pior das hipóteses, de um caroço de mamão. Se o peito fosse gigante, e você já teria dito se fosse, então seria um melão.

Lúcia: Você tem noção de como você é doente?

Zé: Tirando a jabuticaba e o melão, você ainda tem o peito limão, peito tangerina, pêssego, maçã, laranja, pêra, e nos casos de tamanho família, abóbora ou melancia.

Lúcia: Você não pode estar falando sério.

Mathias: Você conhece alguma outra forma de classificação? Melhor que bola de futsal, né?

Lúcia: Meu Deus. É um mais doente que o outro.

Zé: Lú, é só uma fruta, amor.

Lúcia: Tá bem, tá bem, deixa eu pensar.

Lúcia fecha os olhos se concentrando e fazendo movimentos com os dedos apalpando seios imaginários.

Lúcia (abrindo os olhos): Já sei!

Zé: E aí? Qual é?

Lúcia: Tá mais pra um Kiwi.

Mathias: O peito dela é peludo?

Zé: Que nojo, Lúcia.

Lúcia: Como assim, peludo?

Zé: Peludo, Lúcia. Peludo. Não sabe o que peludo? Cheio de pelo.

Mathias: Com todos aqueles cabelinhos pelo lado de fora? Ô Zé, que porra é essa? A gente tá perdendo o jogo lá no bar e a tua mulher só me oferece uma coisa pior que a outra.

Zé: Foi mal, cara. Eu devia ter suspeitado. Ô Lúcia, brincadeira isso, hein? Foi pra isso que você colocou essa toalha ridícula na cabeça?

Lúcia: Não gente, desculpa, o peito dela não tem nada de peludo. Imagina. Claro que não. Eu não tenho amiga com peito peludo. Eu que me confundi, deixa eu pensar de novo… deixar eu pensar…deixa eu pensar… hummmmm…já sei! Ah, dessa vez eu tenho certeza que você vai adorar, Ma. É uma das frutas mais gostosas de todas. É perfeita no tamanho, no gosto, em tudo.

Zé: E qual é?

Mathias: É, qual é?

Lúcia: Fruta do Conde!

Mathias: VOCÊ TÁ DE SACANAGEM COMIGO?

Zé: LÚCIA, ESSA TUA AMIGA POR ACASO É MUTANTE? O PEITO DELA TEM GOMOS EM CAMADAS?

Mathias: Tchau, Zé. Eu vou pro bar. Cansei. Nem a ninfo sueca salva isso aqui.

Lúcia: Não Ma, por favor não vai embora. Me dá uma última chance. Se você não gostar, eu deixo o Zé sair com você sempre que ele pedir.

Mathias: Então é verdade que ele precisa pedir pra você deixar ele sair?

Lúcia: Pedir não. Ele precisa implorar.

Zé: Lúúúúúcia, olha a nossa intimidade sendo exposta mais uma vez. Nós já conversamos sobre isso.

Mathias: Bem…já que as coisas são assim, não custa ouvir até o final.

Lúcia dá uma última olhada na foto da amiga de peito peludo antes de tirá-la da mesa. Vemos que ela é lindíssima.

Zé: E a Cecília, não tá solteira?

Lúcia: A Cecília de jeito nenhum.

Zé: Que isso, Lú. Se ela tá solteira, ela devia estar no topo dessa lista.

Lúcia: Absolutamente.

Mathias: Quem é Cecília?

Zé: Gata. Muito gata.

Mathias: Ô Lú, bota no jogo aí.

Lúcia: Ela não.

Zé: Vocês não eram melhores amigas?

Lúcia: Éramos.

Zé: E?

Lúcia: Você não se lembra do jantar aqui no ano passado?

Zé: Ano passado…

Lúcia: Só nos três aqui, você sugeriu da gente ficar em casa e fazer uma

Zé: Uma sopa?

Lúcia: Uma sopa.

Mathias: Que sopa?

Zé faz uma careta horrorosa.

Zé: Eu tinha me esquecido da sopa.

Lúcia: Sabe aquela pessoa que não sabe tomar sopa?

Zé: Que faz aquele barulhinho quando leva a colher à boca fazendo biquinho?

Lúcia: Tipo refluxo de desentupidor de pia?

Zé: Canudo chupando o vácuo do restinho de refrigerante?

Lúcia: Cachorro quando engasga e coça a garganta?

Zé: Srlubchtkrshrsh

Mathias: Que nojo.

Zé: Acredite, cara. Você não ia agüentar. Ainda mais você que adora uma sopa no inverno.

Lúcia: E ela também mastiga de boca aberta.

Zé: Lúcia, chega. Ele já entendeu o recado. Não precisa apelar.

Lúcia: Mas dá pra ver tudo que tá lá dentro da boca enquanto ela come.

Zé: Eu falei que chega.

Lúcia: Tá bom.

Mathias: Mas então, você tinha mais uma ou não?

Lúcia: Tenho. E essa é tiro e queda. Essa é o Super Trunfo. O palito de sorvete premiado. É como encontrar uma nota de dez reais no bolso da calça.

Mathias: Dez?

Lúcia: Cinqüenta!

Zé: E quem é?

Lúcia: A Mi!

Zé: …a Mi?

Mathias: Pronto. Lá vem.

Lúcia: É. Que que tem a Mi?

Zé: Tem certeza que quer apresentar a Mi?

Lúcia: Que que tem a Mi?

Zé: Ela é os cornos do Cachorro Voador da História Sem Fim!

Lúcia: Aquilo não é um cachorro. É um dragão.

Zé: Lúcia, eu tava tentando amenizar.

Lúcia: Nossa, quando alguém me pedir um especialista em amenizar as coisas vou me lembrar de te indicar.

Mathias: Realmente eu não sei o que eu to fazendo aqui.

Lúcia: Ela não é tão ruim assim.

Zé: Ela é tão carente que ela manda e-mails pra ela mesma por diferentes contas só pra não se sentir muito sozinha.

Mathias: Brigado por tudo, Lúcia.

Lúcia: Calma, Ma. Ela é super romântica.

Mathias: Beijo.

Lúcia: Tão romântica que ela assiste vídeo pornô até o fim só pra ver se os atores se casam no final do filme.

Mathias: Opa.

Zé: Sério?

Lúcia: Verdade.

Zé: Hummmm.

Lúcia: Por que vocês se animaram agora?

Mathias: Essa pelo menos gosta de vídeo pornô.

Zé: Olha só, é perfeito pra você. Uma baranga que gosta de dar. Você nunca teve isso.

Mathias: Qual o nome dela mesmo?

Lúcia: Mi.

Mathias: Mi? Mi o quê?

Lúcia: Só Mi.

Zé: Lúúúúcia.

Lúcia: O quê?

Zé: Fala a verdade.

Mathias: Qual é a verdade?

Lúcia: Todo mundo chama ela de Mi.

Zé: Todo mundo menos o tabelião que registrou ela.

Lúcia: Tá bom. É Mi de Mira.

Mathias: Mira? Mira… Não é tão ruim assim. Mira.

Zé: Lúcia!

Lúcia: É verdade!

Zé: Se você não vai contar, eu conto.

Lúcia: O que é um nome, Zé? Nomes não dizem nada. São só algumas letras na carteira de identidade acompanhada de uma foto horrorosa de uma cara lambida, pálida e minguada. Pra que um nome?

Mathias: Ela tem uma cara minguada?

Lúcia: Não! Claro que não!

Zé: Então tira essa toalha da cabeça de uma vez por todas e fala pra ele o nome dela.

Lúcia arranca a toalha, joga a cabeça pra frente e pra trás movendo os cabelos como em um comercial de shampoo.

Lúcia: O nome dela… é Mira. Vandermira.

Mathias se levanta, dá as costas e vai embora, batendo a porta.

Lúcia: Não entendi. Gosta de mulher feia, mas de nome feio não? Amigo esquisito esse teu, hein?

3 thoughts on “Mathias – A triste saga de um barangueiro confesso (Parte 2)

  1. tu ta ficando paulista, hein!?! Já tá até achando normal esse lance deles de apelido automático com a “primeira” sílaba do nome. hahahahahah
    Abs!

    P.S.: mt bom o texto!! fiquei visualizando o tempo todo Vani e Rui. ahhahahahah

  2. Nathália on

    HAUAHAUAHUAHAUHAUAHAUAHAUAUH!!!
    ADOROOOOO seus textos!! HUhauahuahauahuahau

  3. AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
    Devia ter lido antes!!
    sensacionaaaaaaaaaaaaaal
    cada dia melhor! parabens Gui, arrasou!

  4. Pingback: MARIO

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