Mathias: a triste saga de um barangueiro confesso

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Sala.Interior. Noite.

Lúcia está na mesa descascando uma laranja.

Zé passa por ela e se dirige para a porta de saída.

 

- Tchau, Lúcia.

- Como assim, “tchau”? Onde você tá indo?

- O Mathias tá passando aqui.  A gente tá indo tomar aquela cerveja que eu te falei.

- Cerveja? Que cerveja? Quando você me falou isso?

- Ontem.

- Ontem que horas?

- Quando você saiu do banho.

- Quando eu tava secando o cabelo?

- Lúcia, sinceramente, eu não fico controlando o que você faz ou deixa de fazer quando sai do banho.

- E eu respondi alguma coisa?

- Nada. Achei até bem estranho.

- Zé, como eu ia te ouvir com aquele secador ligado? Você sabe muito bem que eu sempre seco o cabelo depois do banho.

- Eu já falei pra você deixar de ser tão sistemática.

- Você não disse nada pra mim.

- E você sabe que a mulher sistemática anda de mãos dadas com a mulher neurótica…

- Você vai encontrar com outra, não é Zé Carlos?

- E a mulher neurótica é a melhor amiga da mulher psicopata…

- Eu vou te matar, Zé. Pode não ser hoje. Pode não ser amanhã. Pode não ser depois da novela. Mas eu vou te matar. Pode anotar isso.

Lúcia vai esfaqueando a laranja enquanto fala. Zé observa:

- Já terminou a cena?

- …

- Agora você tá toda melecada de laranja.

- Aonde que vocês vão?

- Você sabe, no bar de sempre.

- E o que vão beber?

- O de sempre.

- E sobre o que vão conversar?

- Lúcia, deixa de ser chata.

- Vão falar de mulher.

- Lúcia…

- Vão, não vão?

- Não Lú, a gente vai falar de futebol. Por isso que a gente sai só nós dois. Imagina como ia ser chato pra você ficar ouvindo a gente falar de futebol a noite inteira?

- E ainda vão ficar de olho nas sirigaitas.

- Que isso, Lú. Eu só tenho olhos pra você e pra tv do bar. Hoje tem Libertadores.

- Libertadores é na quarta. Hoje é quinta.

- Nessa semana tem jogo na quinta por causa do terremoto no Chile.

- Não fala besteira. E se sair gol aposto que vão abraçar a peituda mais próxima.

- Que isso Lúcia, agora você tá me ofendendo. Volta a chupar essa laranja e para de falar besteira.

- Eu não gosto que você fique saindo com seus amigos solteiros.

- Lú, relaxa. O Mathias não pega ninguém desde 2003.

- Eu já sei como resolver isso.

- Resolver o quê?

- Vou apresentar alguém pro Mathias.

- O quê?

- Isso. Vou apresentar alguém pro Mathias.

- Vai apresentar quem?

- Alguma amiga.

- Que amiga?

- Sei lá. Tenho várias. Aí a gente passa a sair nós quatro e fica muito mais divertido! Não acha?

- C-c-c-claro, meu amor. Como eu não pensei nisso antes?

Celular do Zé toca.

- É o Mathias. Deve tá aqui embaixo.

- Que ótimo! Fala pra ele subir! Ai, adorei a minha ideia. Não é o máximo? Vou jogar fora essa laranja, lavar as mãos e a gente pensa numas candidatas.

Lúcia sai da sala.

- Alô.

- Zé, pode descer. To chegando.

- Cara, não vai dar. Melhor você subir.

- Como assim? Aqui é péssimo pra estacionar. O que houve?

- Vou falar para o porteiro abrir a garagem pra você. A Lúcia quer conversar com você.

- COMIGO? O QUE VOCÊ FEZ DESSA VEZ? ELA NÃO TE DEU PERMISSÃO PRA SAIR?

- Eu não preciso de permissão, já te falei isso. Ela que quer arrumar mulher pra você.

- COMÉQUEÉ?

- Ela disse que você é um Zé Mané que não pega ninguém, que não sabe abordar uma mulher sem chegar puxando o cabelo e ficou com pena de você porque soube que você voltou do carnaval de Salvador no zero a zero e resolveu apresentar uma amiga gostosa e ninfomaníaca que estava fazendo intercâmbio na Suécia.

- To encostando o carro. Pode falar com o porteiro.

Lúcia volta para a sala.

- E aí, ele gostou da ideia?

- Amou.

- Ai que bom! Estou tão animada!

- Olha se ele começar com algum papo esquisito de ninfomaníaca da Suécia, não repara não, tá? É que ele viu outro dia um documentário sobre a qualidade de vida nos países nórdicos e ficou meio fascinado.

- Nossa, ele gosta de documentário? Que legal. Então já tenho uma amiga super cabeça perfeita pra ele.

- É baranga?

- Hein?

- Quem é?

- Você botou as cervejas no congelador?

- Não.

- Coloca lá.

Zé sai da sala.

Campainha toca.

Lúcia abre.

- Oi Lúcia.

- Mathias! Tudo bom?

Lúcia abraça Mathias.

- O que houve com a sua blusa?

- É que eu tava chupando uma laranja.

- Ah tá.

- Que tapado.

- O QUÊ?

- Que coitado! Eu falei que coitado! O coitado do Zé tá lá dentro pegando umas cervejas. Não quer ir lá ajudar?

Mathias fica olhando para ela incrédulo.

- Pode ir. É por ali. Eu vou lá trocar essa blusa suja. Como sou descuidada.

Mathias sai da sala.

Lúcia vai para o quarto.

- Esse vai dar trabalho. Onde já se viu perguntar o que houve com a minha blusa? Será que o Zé só tem amigo idiota?

Mathias entra na cozinha.

- Fala, Zé.

- E aí, cara. Beleza?

- Tua mulher não sabe chupar laranja não?

- Quê?

- Nada não. Me dá uma cerveja aí.

- Ainda não gelou.

- Tudo bem. Me dá assim mesmo.

- Tá mal assim, é?

- Eu não to mal. Eu só tinha programado meu organismo para estar recebendo uma cerveja neste exato momento. Como não estamos no bar, onde deveríamos estar, vai essa quente mesmo.

- Putz, mas você tá péssimo. Tá até falando que nem telemarketing.

- Quê?

- “Para meu organismo estar recebendo, você estará me oferecendo para eu estar bebendo”.

- Não enche.

- Ó, aqui em casa não pode arrotar, hein. Não esquece. A Lúcia não gosta.

- É incrível como você foi domesticado. Quem te viu, quem te vê. Mas me diz aí o que tá rolando. Que ninfomaníaca é essa da Suécia?

- Cara, eu não sei de nada. Você conhece a Lúcia. Ela tira umas estórias do nada.

- E que porra é essa de zero a zero em Salvador? Você sabe muito bem das trigêmeas que eu peguei na escada do Senhor do Bomfim. Elas ficaram famosas.

- Não eram trigêmeas. Era uma só. Você que tava bêbado demais. E era um Dragão da pior qualidade.

- Eu me lembro que eram três. Talvez mais.

- Era um Dragão tão barra pesada que lembrava até o Tiamat. Da Caverna do Dragão, saca?

- Não começa.

- Não era ele que tinha sete cabeças? Vai ver é por isso que você tem a impressão de serem mais gêmeas.

- Eu falei não começa.

- Ela tinha um cabelo meio que todo errado, sabe? Sabe quando a mulher é meio careca e tem uns tufos de cabelos meio assimétricos? É por isso que pareciam várias cabeças.

- Mentira.

- Verdade. Foi bizarro. Você ia avançando pra cima dela subindo a escadaria como se lá no topo estivesse o Portal de atravessar dimensões para você chegar ao Parque de Diversões de volta pra casa.

- Deixa eu adivinhar. Mas chegando lá em cima, quem tava lá era o Vingador.

- Antes fosse. Tava um negão três por três que era o namorado da Tiamat.

- Então foi por isso que eu tava com aqueles hematomas? Disseram só que eu tinha rolado uma escada.

- Bem, não deixa de ser verdade.

- E aquela baixinha que eu peguei na noite anterior?

- Parecia mais o Mestre dos Magos.

- …

- E não era fantasia.

- Não posso acreditar.

- Há testemunhas.

- Existem fotos?

- Para o seu bem, não.

- Quem te contou isso tudo?

- Jurei não contar.

- Fala logo.

- Realmente não posso.

- Desembucha.

- Por favor, não insista.

-Eu te pago uma cerveja.

- Foi o Cláudio.

- Aquele desgraçado.

- Não vale o ar que respira.

Lúcia grita da sala:

- Meninos, podem vir pra sala! Vamos acabar com esse zero a zero do Mathias ou não?

Mathias fuzila Zé com os olhos.

- Não me olha desse jeito. Melhor ter fama de pega-nínguem do que de Encantador de Dragões.

Mathias continua fuzilando Zé com os olhos.

- O quê? Você prefere a fama de barangueiro?

- Que atire a primeira pedra aquele que nunca pegou uma baranga.

- Mas você já passou desse nível, Mathias. Você foi até o inferno e voltou.

- Todo homem tem um barangueiro adormecido dentro de si, Zé. A baranga faz parte da vida do homem. Sempre fez. Alguns apenas residem nessa fase mais tempo que outros.

- Mas você tá nessa desde os dezesseis, Mathias. Tava mais do que na hora de sair. E não de abraçar o capeta e rolar escada abaixo.

- Todo homem foi ou será um barangueiro. É da sua natureza. E se você quer saber, Zé, eu invejo aqueles que ainda não barangaram na vida. Mas é inveja boa, sabe, inveja branca. Tipo aquela inveja de quem não viu a primeira temporada de Lost e tem um mundo inteiro de coisas para descobrir.

- E a baranga nesse caso seria o monstro de fumaça que pega geral?

- Pegar baranga é uma arte, Zé. E como toda arte, leva tempo pra ser aprimorada.

- Levar mais que cinco minutos pra pegar a baranga não é aprimorar uma arte. É amadorismo.

- A baranga tem que ser degustada, Zé. Sorvida. Diferente das outras, ela sempre dá tudo de si, sempre quer se superar. Ela sabe que aquela pode ser a sua última vez com um homem, ela sabe que corre esse risco. Por isso ela faz de tudo para que aquilo seja inesquecível.

- Mas não é contraditório ter que encher a cara para encarar a baranga e por causa da bebida não se lembrar de algo que deveria ser inesquecível?

- É aí que fica a linha que separa os homens dos meninos. O verdadeiro barangueiro encara tudo sóbrio.

- Cruz credo.

- Cruz credo? Zé, eu sei muito bem das barangas que você pegou. Eu estava lá. Eu sei do seu passado. A Lúcia sabe?

- Pode parar. Pode parar. Que que é isso? Eu te chamo aqui em casa pra minha mulher te arrumar umas amigas e

- Já o pega-nínguem é um merda, Zé. É um zero à esquerda. É um sujeito incapaz de se articular, incapaz de sobreviver lá fora. O barangueiro tem apenas uma questão de critério. Mas o pega-nínguem? Ele é um cara que olha seu passado e lamenta, Zé. Lamenta as mulheres que ele não teve coragem de chegar e não os foras que ele tomou. E eu não sou esse cara, entendeu? Eu olho nos olhos do demônio e eu encaro. Mesmo que cada olho esteja virado para um lado diferente. Mesmo que tenha apenas dois dentes, uma perna ou sete dedos na mão, eu não corro. Eu não fujo. Você tem idéia de quanta coragem um homem precisa para fazer isso?

Lúcia fala:

- Ou quanta falta de auto-estima?

Os dois se viram e vêem Lúcia na porta da cozinha de braços cruzados com um grande sorriso no rosto.

Zé: LÚCIA? Você tava aí ouvindo nossa conversa?

Lúcia: Eu chamei vocês na sala. Como não vieram, eu vim até aqui pra chamar. A conversa tava tão animada que eu não quis interromper.

Mathias: Há quanto tempo você tava aí?

Lúcia: O bastante, barangas-man.

Mathias: Ai meu Deus.

Lúcia: Mas eu concordo com você. Sou muito mais um barangueiro do que alguém que não sai do zero a zero.

Mathias: Sério?

Lúcia: Não acho que deveria ser um ideal de vida, mas admiro um barangueiro que assume com orgulho o que faz. Não é como outros que escondem o passado e tiram onda de pegador.

Zé: Eu nunca tirei onda de

Lúcia: CALABOCA, BARANGUEIRO ENRUSTIDO SAFADO PILANTRA.

Zé: …

Mathias: Gente, eu vou embora.

Lúcia: De jeito nenhum. Eu disse que vou te arrumar uma amiga e vou te arrumar uma amiga. Não tenho muitas amigas barangas, mas posso olhar na agenda da faculdade.

Mathias: Não Lúcia, sério. Obrigado por tudo, mas eu to completamente sem graça e

Lúcia: CALABOCA VOCÊ TAMBÉM E VÃO JÁ PRA SALA VOCÊS DOIS QUE EU NÃO VOU FALAR DE NOVO.

Os dois não se olham e vão para a sala em silêncio. Lúcia pega uma cerveja e vai atrás.

Continua

4 thoughts on “Mathias: a triste saga de um barangueiro confesso

  1. Beta on

    Leve, divertido e fresco.

    Já estou ansiosa para os próximos capítulos

  2. Stotz on

    Moleque, você ainda vai ter que pagar direitos autorais pra uma galera…

  3. Pingback: DARREN

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