Se cobrir, vira Circo – Parte 2

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Sala. Interior. 12 horas atrás.

Lúcia está no sofá discando um número no telefone, quando atendem do outro lado.

 

- Alô.

- Alô, poderia falar com a Tamara?

- É ela. Quem fala?

- Oi, Tamara. Aqui é a Maria Lúcia. Você não me conhece mas eu já ouvi tanto sobre você que me sinto como se já te conhecesse desde sempre. Tá com tempo?

- Isso é algum trote?

- Não, Tamara aqui é a

- Escuta aqui, se você tá ligando de algum presídio pra dizer que minha mãe, meu pai ou os filhos que eu não tenho estão seqüestrados e você quer um monte de cartões telefônicos como resgate, você acaba de se foder muito porque meu telefone tem bina e é conectado diretamente com a polícia e eles já devem estar chegando onde você estiver em aproximadamente 30 segundos, por isso se eu fosse você começava a correr e a rezar ao mesmo tempo a partir de agora.

Lúcia pensa “Bem que o Zé falou que ela era meio estressada. Sorte dele que ele me encontrou”.

- ér…, Tamara?

- Você ainda não correu? Daqui você não vai conseguir cartão telefônico nenhum, entendeu?

- Eu não to no presídio não.

- Esconderijo?

- Também não.

- Boca de fumo?

- Tamara, eu não sou criminosa nem estou fingindo que sequestrei algum parente seu.

- Não?

- Não.

- E quem é você mesmo?

- Maria Lúcia. Namorada, companheira, mulher, não sei como dizer isso direito, essa indefinição de relacionamento acaba comigo sabe, você mora com a pessoa, mas não é casada, tem a vida de casada, mas não tem aliança, você pede uma definição, ele diz que esse lance de rotular as coisas não tem nada a ver, que o que importa é o sentimento, os momentos que a gente vive, coisa e tal, aí você cai nessa ilusão de que ele é um namorido, o que é excelente para quem quer viver em cima do muro, mas para mim não, muito obrigada, e como não existe namorida, aliás ainda bem, porque eu jamais iria compactuar com essa palhaçada então eu viro o quê? Mulher. É só ter que me apresentar pra alguém que ele fala, opa, tudo bom, essa aqui é minha mulher, como se ter ido morar com ele tivesse me transformado em mulher, e não o fato deu ter menstruado, me formado e ter sobrevivido às promoções no sábado de manhã no início do mês na Shoestock de Moema.

- Sei como é. Lembra um ex-namorado que eu tive.

- Deve lembrar.

- Mas você é namorada de quem mesmo?

- Moro junto.

- Ah é. Mora junto com quem?

- Com o Zé.

- Zé? Que Zé?

- Zé Carlos, seu

- Ex-namorado?

- O próprio.

- O Carlutcho? Ahahahahahaha. Nossa! Há quantos anos não ouço falar do Carlutcho. Como ele está?

- Melhor do que nunca.

- Não sabia que ele ainda tinha meu telefone guardado. Achei que ele tinha jogado tudo fora depois do nosso término. Ele ficou tão abatido, tadinho.

- Foi você que terminou com ele?

- Foi.

- Tem certeza?

- Esse não é o tipo de coisa que você se confunde.

“Canalha, desgraçado, pilantra, mentiroso, cafajeste”, Lúcia pensa.

- Pois é, né. Não é que ele guardou o seu número? Esse Carlutcho é surpreendente, não?

- Mas a que devo sua ligação, Maria Lúcia?

- É que o Carlutcho, digo o Zé, sempre falou tanto de você, como você é bonita, interessante, como gosta de ser assistida…

- Assistida?

- Você não é atriz? Pelo menos foi o que o Zé me contou.

- Ah sim, claro. É verdade. Sou sim.

- Então, a gente tava conversando sobre como ele nunca fala das namoradas que ele teve,

- Ele sempre foi muito fechado nisso.

- Foi, querida. Foi. Comigo ele pode se abrir. Ele se abre mais que a zaga da Coréia do Norte. Ele sente que nós temos uma confiança indestrutível e pode dizer tudo sem medos, sabe, uma conexão genuína.

- Que ótimo.

- Então, e eu disse que tinha vontade de conhecer as ex-namoradas dele, porque assim conheço um pouco mais dele mesmo sabe, e ele logo falou de você, como você era bacana e como seria legal se a gente pudesse tomar um vinho aqui em casa sabe, se conhecer, essas coisas.

- Nossa, fico surpresa. Não sabia que o Lulutcho tinha evoluído tanto assim. Nem parece que estamos falando da mesma pessoa.

- Ah sim, o Lulutcho melhorou muito. Tá até tomando banho todo dia agora. Precisa ver que gracinha.

- Fico lisonjeada com o convite. Vou aparecer sim.

- E de repente podemos assistir a um filme depois do jantar, quem sabe. Assistir é bom, né? Não dá o maior prazer?

-…é…pode ser. A gente vê na hora né?

- Ah, e vem também o Mathias, um dos melhores amigos dele, você chegou a conhecer?

- Mathias? Mathias…? Não…acho que não.

- Ele é bem baixinho, sabe. Beeeem baixinho.

- Tudo bem. Deve ser uma ótima pessoa.

- Não chega a ser um anão, mas é bem baixinho.

- Entendi.

- Nem pode ir a shows com muita gente que não consegue ver nada.

- Tadinho.

- Mas no Circo ele pode ir.

- Que bom.

- Lá tem arquibancada, né. Aí dá pra assistir com tranqüilidade, o quanto durar o show.

- Que bom pra ele.

- Assistir, sabe?

- Ahã.

- Você gosta de circo?

- Todo mundo gosta.

- Nem todo mundo. Eu não gosto. Os animais não gostam. Hoje em dia é proibido ter animais no circo, sabia?

- Sabia.

- Mas anões pode.

- Pois é.

- Você gosta de anões?

- Qual o endereço da casa de vocês?

- Anota aí.

Continua

 

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