Se cobrir, vira circo – Parte 4

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Castelo da Bela Adormecida. Exterior. Dia.

Zé Carlos, vestido de príncipe encantado, escala o muro da torre mais alta do castelo e entra pela janela do quarto, onde ele encontra Mathias com a barba por fazer, vestido de Bela Adormecida, dormindo e roncando profundamente.

O quarto está cheio de passarinhos das mais diversas cores, coelhos saltitantes e filhotes de ursos panda dando cambalhotas.

Zé coloca sua espada de lado e a apóia na parede. Retira sua boina escarlate e se inclina lentamente em direção ao rosto de Mathias.

Os passarinhos cobrem seus olhos com suas asas, os coelhos saltitam para fora da janela caindo de uma altura de 40 metros na floresta de espinhos e os filhotes de urso panda dão cambalhotas fatais contra as paredes do quarto.

O Príncipe Zé se aproxima dos lábios de Mathias Adormecida e já está próximo o bastante para sentir o hálito de cerveja e cigarro que a pobre dama exala.

Quando o último filhote de urso panda quebra o pescoço, seus lábios se tocam e Mathias abre os olhos.

Quarto de Mathias. Interior. Noite.

Mathias abre os olhos gritando enquanto o celular toca.

 

- ALÔ?

- Faaaaaaaaala Mathias! Beleza?

- ZÉ?

- Sou eu, cara! Beleza? Te acordei?

Mathias olha ao redor. Esfrega a boca com nojo e raiva e susto. Não vê passarinhos coloridos, coelhinhos saltitantes e muito menos filhotes de urso panda. Apenas roupas amassadas no chão, uma toalha úmida no pé da cama e a TV ligada com uma senhora vendendo tapetes.

- São duas da manhã, mano. Aconteceu alguma coisa?

- Nããããão, cara. Tá tudo em paz.

- Então me liga amanhã, véio. Eu to morto.

- Cara, mas hoje já é amanhã. Diz aí, o que tem feito de bom?

- Não enche, Zé.

Mathias desliga o telefone e volta a dormir.

Sala de Zé e Lúcia. Interior. Noite.

- Viu? Ele desligou. Não tá a fim de vir aqui amanhã.

- Liga de novo.

- Lúcia, ele desligou na minha cara.

- Insiste.

- Você vai me fazer perder o amigo.

- Liga antes que ele durma de novo.

- Tá, tá, tá.

- E vai direto ao assunto. Para com essa coisa ridícula de o que você tem feito de bom. Ninguém liga pros outros a essa hora para perguntar o que tem feito de bom.

- Ah, e pra convidar pra jantar liga?

- LIGA!

Castelo da Bela Adormecida. Exterior. Dia.

Zé Carlos, vestido de príncipe encantado, escala o muro da torre mais alta do castelo e, ao entrar pela janela do quarto, toma um tiro de escopeta no meio do peito, despencando de uma altura de 40 metros na floresta de espinhos.

Mathias, vestido de Bela Adormecida, aparece na janela segurando a arma e olha para baixo.

- Tá me tirando, véio?

Os passarinhos coloridos voam felizes, os coelhinhos saltitam alegres e os filhotes de urso panda dançam rebolation. Fazem uma festa tão grande que nem percebem o toque de celular que acorda Mathias novamente.

Quarto de Mathias. Interior. Noite.

Mathias, com um grande sorriso no rosto, acorda com o celular tocando.

- Fala Zé.

- Foi mal te ligar a essa hora, mas é que

- Tá sussa. Pode falar.

- Tá tranqüilo?

- To de boa. Fala aí.

- Tem certeza?

- TENHO, VÉIO. FALA LOGO.

- É que o Cláudio arrumou um vídeo com a íntegra da final do Mundial do Corinthians em cima do Vasco filmado dentro da casa de uns palmeirenses e o pessoal vai chegar aqui em casa amanhã pra tomar uma cerveja.

- Da hora. Que horas é pra chegar?

- Umas oito.

- A Lúcia vai tá aí?

- Ela vai tá com uma amiga, mas elas vão ficar no quarto. Não vão atrapalhar não.

- Firmeza. Abraço.

- Até.

Sala de Zé e Lúcia. Interior. Noite.

Lúcia está de queixo caído.

- Que foi, Lú?

- …

- Aconteceu alguma coisa?

- …

- O quê? Você acha que ele viria aqui se eu dissesse a verdade?

- …

- Claro que não viria. Eu conheço ele.

- …

- Não precisa fazer essa cara. Vem, vamos pra cama.

- …

- Não vai vir não?

- Eu to cho-ca-da com a sua facilidade em mentir pras pessoas que você mais gosta.

- Não era o que você queria? Conseguiu. Ele vai vir. Pronto.

- Mas a que custo? O que vai acontecer quando ele chegar aqui de gorro, com a camisa do Corinthians com meia dúzia de cervejas num saco plástico de supermercado e encontrar a Tamara toda linda, cheirosa e maravilhosa com uma taça de vinho na mão?

- Ele não vai vir com a camisa do Corinthians.

- Ah, mas com o gorro vai?

- Você devia me agradecer por convencer ele a vir depois de tudo que você fez.

- Qual foi a última vez?

- Última vez do quê?

- Que você mentiu com essa naturalidade pra mim?

- Lúcia, olha, paciência tem limite. São quase três da manhã e eu to esgotado. To me sentindo como se tivesse tomado um tiro de escopeta no meio do peito. Eu vou deitar.

- Vai fugir?

- Boa noite.

- Boa noite nada. Volta aqui.

Zé vai pro quarto e Lúcia vai atrás.

- Zé Carlos, volta aqui. Quando você mentiu assim pra mim? Fala, safado.

A seguir: O encontro

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