Se cobrir, vira circo – Parte 5

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Apartamento do Zé e Lúcia. Interior. Noite.

Na mesa: salgados, guardanapos e taças.

Zé está andando de um lado para o outro na sala olhando para o relógio que mostra 20:02, quando o interfone toca.

 

Lúcia: ZÉÉÉÉÉÉÉÉ. O INTERFONE.

Zé: ISSO É HORA DE ENTRAR NO BANHO, LÚCIA? JÁ TÁ CHEGANDO GENTE AÍ.

Lúcia: JÁ TO SAINDO.

Zé: Por favor, seja o Mathias, por favor, seja o Mathias, por favor, seja o Mathias, alô.

Valdir: Boa noite, seu Zé.

Zé: Boa noite, Valdir.

Valdir: Dona Samara subindo.

Zé: É Tamara.

Valdir: Como?

Zé: Tá ok, Valdir. Brigado.

Valdir: Não há de quê.

Zé: Ô LÚCIA, QUER SAIR LOGO DESSE BANHO?

Lúcia: JÁ VOU. VAI RECEBENDO AÍ AS PESSOAS.

Zé: Ela tá subindo, ela tá subindo. Calma. Respira. Respira. Lá vem Adílio, tem tudo pra matar o jogo, chutou, mas o goleiro do Cobreloa toca com a mão fora da área, é falta para o galinho cobrar, a cobrança é perigosa, são 39 do segundo tempo, ajeitou, olhou pra barreira, bateu e é gol.

Zé fecha os olhos e começa a massagear as têmporas, inspirando e expirando profundamente. Das têmporas, passa para a nuca, da nuca para os ombros. Depois, começa a girar a cabeça lentamente para a esquerda e depois para a direita, dez vezes para cada lado, como Jane Fonda ensina em seus vídeos. Quando abre os olhos, encontra Tamara de braços cruzados sorrindo e olhando para ele.

Tamara: Você não mudou nada, sabia?

Zé (assustado): COMO VOCÊ ENTROU AQUI?

Tamara está vestida para matar. Exatamente como no dia em que se conheceram.

Tamara: Oi Carlutcho. Há quanto tempo.

Zé: Não me chama assim. COMO VOCÊ ENTROU?

Tamara: Eu bati na porta. Ninguém abriu. Girei a maçaneta, a porta abriu. Você devia ter mais cuidado. A vida na cidade grande é bem perigosa.

Zé: Você bateu? Não ouvi.

Tamara: Você tava concentrado demais no seu alongamento. Que que foi? Tava nervoso por minha causa?

Zé: Nãoclaroquenãoimaginaeunervosodejeitonenhum?

Tamara: Ah não?

Zé: É que eu fui abrir o vidro de azeitona e aí resolvi alongar antes para não distender o trapézio, sabe.

Tamara: Aaaaaah, sei. O trapézio. Tadinho. Sei como é.

Zé: Pois é.

Tamara: Olha, eu pensei em trazer um vinho e

Zé: Imagina, não precisava.

Tamara: Aí eu trouxe aqui essa garrafa de

Zé: Periquita?

Tamara: Não gosta mais?

Zé: Não. Quer dizer… sim. Não! Na verdade,

Tamara: Gosta ou não gosta?

Zé: Claro que sim.

Tamara: E cadê a sua namorada?

Zé: Tá lá dentro, saindo do banho.

Tamara: Então… não quer abrir pra gente relaxar um pouco?

Zé: A sua Periquita?

Tamara: Isso.

Zé olha na direção do banheiro e se volta para Tamara.

Zé: Ok.

Tamara: A não ser que você esteja com medo de distender o trapézio. Ou algum outro… membro.

Zé: Já to quente.

Tamara: Ui.

Zé: Que foi?

Tamara: Se quiser, eu abro.

Zé: Você? Abrindo Periquita?

Tamara: Não sei porque o espanto. Perdi a conta de quantas vezes já abri Periquita. Até mesmo sozinha em casa. Eu adoro.

Zé abre a garrafa e serve duas taças.

Tamara: Sabe, fiquei realmente surpresa com esse seu convite. Jamais esperaria isso de você.

Zé: Pois é. Às vezes até eu me surpreendo comigo mesmo. Não quer sentar?

Os dois se sentam no sofá.

Tamara (olhando ao redor): Obrigada. Bonito o apartamento, hein. Muito bom gosto.

Zé: É tudo a Maria Lúcia.

Tamara: Ela parece ser uma mulher e tanto.

Zé: Ô se é.

Tamara: Como vocês se conheceram?

Zé: Ah, ela conta essa história melhor do que eu. Depois você pede que ela conta.

Tamara: Você não contou nada pra ela sobre nós, né?

Zé: Sobre nós?

Tamara: Você saaaaaabe… sobre nóóóóóóóós…

Zé: Aaaaah, não. Não! Claro que não! Que pergunta. Imagina. Por que a pergunta?

Tamara: Eu não sei, achei ela meio estranha no telefone comigo, meio parecendo que sabia de alguma coisa.

Zé: A Maria Lúcia? Não, de jeito nenhum. Deve ter sido impressão sua. Não tem jeito dela saber de nada.

Tamara: Bem, vai ver eu entendi errado.

Zé: Provavelmente.

Tamara: E você, o que tem feito?

Zé: Ah, nada d

Tamara (se jogando pra cima dele): Eu achei que você nunca fosse me superar, sabia?

Zé (se afastando): O quê?

Tamara (se aproximando): Eu não acredito que você se esqueceu de tudo que a gente viveu.

Zé (pegando um pote sem olhar): Você não quer um amendoim?

Tamara (cada vez mais perto): Isso é azeitona. Fala que você ainda pensa em mim, fala.

Zé: Deu o maior trabalho para abrir esse pote. É azeitona preta. Não quer? Tá bem boa.

Tamara (ainda mais próxima): Não é azeitona o que eu quero, Carlutcho.

Zé: Não me chama assim.

Tamara (enroscando a perna dela na dele): Você não virou essa página, não é? Eu sei que não.

Zé: Tamara, eu preciso falar uma coisa pra você.

Tamara (olhando fixamente para a boca dele): Que que é, Lulutcho? Fala! Fala!

O interfone toca.

Lúcia grita lá de dentro: ZÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ, O INTERFONE.

Zé: JÁ OUVI. Só um instante, Tamara.

Zé vai até a cozinha.

Zé: Oi Valdir.

Valdir: Seu Elias subindo.

Zé: É Mathias.

Valdir: Como?

Zé: Nada não. Tá ok, Valdir. Brigado.

Zé abre a porta da entrada: É o Mathias. Camarada meu, gente fina.

Lúcia grita lá de dentro: ZÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ, VEM ME AJUDAR COM ESSE ZÍPER.

Zé: Só um instante.

Tamara: Boa sorte. Zíper não é fácil.

Zé vai lá pra dentro, enquanto Mathias entra vestindo uma bermuda jeans rasgada, camisa do Corinthians, gorro e segurando um saco plástico de supermercado com meia dúzia de latas de cerveja.

Mathias: Ô de casa. Olha essa porta aberta, Zé. A vida na cidade grande é bem perigosa, sabia?

É quando Mathias percebe Tamara e seus olhares se cruzam.

Mathias enfia o gorro no bolso.

Continua

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